Autêntico perfume
Capítulo quatro
O relógio marcava sete
horas da manhã em ponto, quando Léo despertou. Olhou pela janela, o dia já havia
amanhecido. Uma leve brisa despenteava a copa das árvores. Os automóveis
começavam a circular freneticamente pelas ruas. Preguiçosamente alguns
pedestres se aventuravam nas calçadas para mais um dia de trabalho.
Dia de enfrentar a
fera. “Seja o que Deus quiser...”, pensou Léo ao lembrar do que aconteceria
logo mais no escritório da Charme Ltda.
Léo jogou-se embaixo de
uma ducha morna para acabar de acordar. Vestiu-se tranquilamente. Preparou seu
café e ficou relembrando a noite anterior. Sentiu um calafrio ao recordar os
lábios quentes de Rudi. Estava tão fascinada com a semelhança dele com Sven,
que a havia esquecido o prazer e a magia dos beijos dele. Uma onda de calor
subiu por suas costas.
Rudi era muito melhor
do que Sven! Terminou de se arrumar, organizou sua pasta e seguiu para a sede
da Charme.
O trajeto foi
tranquilo. Às nove horas e quarenta e cinco minutos fez-se anunciar na
presidência da Charme. Indagou pelo senhor Rudi.
— Ele está reunido com
a sra. Laura nesse momento e pediu que não houvesse interrupção. — respondeu prontamente
a secretária.
— Está bem! Tenho algumas
coisas a fazer até a hora da reunião. Avise por favor que já cheguei e que
estarei na sala de reunião. Muito obrigada!
— ok, Leonarda!
Avisarei assim que puder.
Léo dirigiu-se para a
sala de reuniões. Tentou recordar os detalhes e as informações passadas por
Rudi na fatídica reunião. Precisava acertar todos os desvios do projeto
com base nos dados fornecidos. A estratégia estava correta, mas alguns ajustes
faziam-se necessários para que o projeto não fracassasse.
Às dez horas, Rudi
adentrou a sala de reuniões seguido de Laura. Ela tinha uma expressão
contrariada, apesar do sorriso que tentava esboçar.
— Olá, Léo! Fico feliz
que tenha reconsiderado em não sair do projeto...
— Sim, mas impus
condições para voltar...
— Claro, querida! — disse num tom irônico. — Estou disposta a pagar o preço por ter sido tão leviana.
Eu não tenho escolha. Fique à vontade!
Após esse breve
diálogo, Laura deixou a sala de reuniões. Léo voltou-se para Rudi com expressão
de dúvida.
— Ela aceitou
passivamente a situação?
— Claro que não, Léo!
Você conhece a prepotência de Laura! Eu tive que ameaçar com a retirada dos investimentos
programados pelos parceiros europeus. Há várias vertentes da Charme que são voltadas
para a beleza masculina e outras para a beleza feminina: perfumes, cosméticos,
acessórios e até prêt-à-porter.
Consegui uma parceria para lançar uma linha de spas na Europa, iniciando por Londres e Paris, que logo se
estenderá para outras capitais europeias e depois alcançará os Estados Unidos e
o restante das Américas. É um projeto muito ambicioso e milionário, que se iniciará
com o lançamento do Desire na
Europa. Eu não poderia correr o risco de, por um capricho de Laura, perder
tudo. Está acima dela. Desde sempre ela sonha em expandir a empresa na
Comunidade Europeia, pois é onde tudo acontece.
— Interessante! Você
usou o veneno dela para neutralizá-la. Muito esperto.
— Não sei... mas
funcionou! Aqui estão as informações que faltavam para fecharmos o projeto e
procedermos à fase três.
— ok! Vamos trabalhar!
Durante três dias, Léo
e sua equipe revisaram as estratégias e metas de lançamento. Tudo estava
correndo de acordo com o cronograma.
A festa de lançamento
seria no Rockfeller Center em Nova York. Toda a infraestrutura foi programada! O
evento seria uma festa grandiosa para mil e quinhentos convidados (astros e
atrizes de cinema, homens e mulheres de negócios, socialites e jornalistas especializados). Haveria dois palcos e uma
tenda para a apresentação de um show multimídia com todas as etapas de
preparação do Desire. A data
escolhida foi oito de março, devido ao dia internacional da mulher.
Seria apresentada uma
instalação em homenagem às mulheres, além de uma projeção holográfica dos acontecimentos
que tornaram o Oito de março o dia internacional da mulher.
Léo cuidou de todos ao detalhes
da pré-produção e encaminhou tudo para Rudi, que as repassava para Laura. Rudi
parecia cada vez mais distante, quando estava com Léo. Só falavam no perfume,
nas projeções e no evento de lançamento. Realmente a expectativa estava grande,
pois o departamento de atendimento ao consumidor recebia diariamente centenas
de indagações e encomendas para o perfume.
Rudi estava
entusiasmado, mas a distância aumentava. Léo tentava desviar seus pensamentos
daquele jantar e daquela noite maravilhosa, entretanto estava ressentida. Sabia
que havia acontecido algo, mas não podia atinar o que seria.
Faltando um mês para o
megaevento, a oportunidade para que Léo esclarecesse tudo aquilo surgiu. Estavam
todos animados com os números do marketing,
que resolveram ir à casa de chá comemorar e relaxar.
A casa de chá localizava-se no
mesmo bairro, uma rua acima. Era um prédio robusto e antigo datado de 1930. Abrigava a charmosa casa de chá há cinquenta anos. Brindaram com café puro. A conversa
estava animada. Léo não conseguia retirar os olhos de Rudi. Ele tentava não se
deixar desnudar pelo olhar perscrutador de Léo.
Aos poucos a equipe foi
se retirando. Alguns foram para casa, outros retornaram para o escritório a fim
de terminar algumas tarefas. Rudi e Léo viram-se a sós no café.
— É, Rudi, nós conseguimos!
Não que eu duvidasse disso, mas sim por causa da grandiosidade do projeto.
— É verdade! Mas eu
havia avisado que era algo extraordinário!
— Até hoje não
acredito que Laura tentou esconder tudo, por medo de eu me tornar gananciosa com
relação às cifras empregadas. Eu sou ambiciosa, luto por tudo que almejo, mas
não me vejo gananciosa!
— Eu também não, Léo!
É isso o que eu admiro em você. A dicotomia entre a sofisticação e a simplicidade
me fascinam!
— É mesmo! Sabe, Rudi,
eu não consigo esquecer aquele jantar e aquele passeio. Eu tento dizer para mim
mesma que foi um acontecimento isolado; maravilhoso, mas isolado... Entendo que
você ao se tornar meu coordenador não pode se aproximar mais. Acredito que a
minha insistência em que você aceitasse o cargo inconscientemente faria com que me afastasse de você, emocionalmente falando. O bloqueio que isso traz me afastou de
você. Acho que é medo de me envolver, me entregar.
— Você sabe empregar
as palavras.
— É! Mas quero dizer
que independente de tudo, eu apreciei tudo o que ocorreu. Não sei o que pensa,
mas eu gosto muito de você. Cheguei até a fantasiar nossa vida juntos, pois
você definitivamente é o homem quem eu gostaria que testemunhasse minha
existência.
— Humm... Não sabe
como esperei para ouvir isso todos esses dias! É claro que não tenho medo de
nada, mas, em se tratando de você, fico pisando em ovos literalmente. Senti seu
afastamento a partir da minha assunção à coordenação do projeto. Achei que
tivesse feito ou falado alguma coisa. Repassei os fatos ocorridos milhares de
vezes e não consegui encontrar o que dera errado.
— Rudi, foi inconsciente
ou subconsciente. Freud explica! Eu quero que esse projeto seja um megassucesso.
Empenhei-me para isso, mas não quero perder uma parte importante da minha vida,
que foi ter conhecido você. Senti vontade de fugir várias vezes, mas algo subitamente
me segurou. Eu quero estar com você, tocá-lo, saber quem você é de verdade. Eu
não tenho mais medo...
— Fico feliz, Léo!
Rudi tomou as mãos de Léo
e beijou-as. Nunca uma mulher fora tão explícita e tão centrada na explicação de
seus sentimentos. Rudi sentiu um calafrio de alegria.
Finalmente seriam felizes... Juntos!
Finalmente seriam felizes... Juntos!

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