Autêntico perfume
Capítulo um
Mais uma manhã cinzenta
de inverno empoleirou-se no horizonte, mas o sol tentava a muito custo pintar
as cabeleiras das nuvens num tom avermelhado. Os pássaros buscavam mostrar
alguma alegria por mais um dia que despertava com olhos ainda imersos em uma preguiça
letárgica.
Leonarda sentiu o peso
de sua gata Jade, que acabara de subir na cama, despertando-a. Abriu os olhos e
tentou não se virar e dormir novamente. Precisava se levantar, pois havia muito a
fazer. Era editora de moda e estava finalizando um projeto desenvolvido para o
lançamento de uma nova linha de perfumes.
O projeto havia
requerido muitas horas de reunião com a poderosa presidente da Charme Limitada.
Na sempre concorrida fatia de mercado de perfumes femininos. Errar era fatal.
Foi o que deu a entender Laura!
Após estabelecer com
exatidão o que Laura planejava acerca do perfume a ser lançado, Léo (como era
carinhosamente chamada por sua equipe) reuniu-se com os profissionais
envolvidos no lançamento: designer, perfumista, publicitário, gerente de
vendas, jornalista, além, é claro, de sua selecionadíssima e competente equipe de
apoio: Shirlei, secretária e companheira; Carlos, apoio administrativo e
conselheiro e Roberto, designer responsável
pelo croquis do projeto.
Léo voltou de seus
devaneios. Espreguiçou-se lentamente. Acariciou Jade, que ronronou de
satisfação.
— Ah, Jade! Sua
malandrinha! Você sabe que não gosto que suba na cama, não é? Mas
tudo bem! Foi bom, pois você me acordou! Preciso fazer um monte de coisas!
Levantou-se e foi para
o banheiro. Abriu as torneiras da banheira. Não importava o que houvesse
(renúncia de George W. Bush, a chegada de uma missão de paz vinda da estrela
Círios), ela iria se imergir em um longo e delicioso banho de espuma e sais. Há
quinze dias que vinha tentando fazê-lo, mas a campanha e a dona da Charme não
permitiram.
Colocou os sais e
outros acessórios. Diminuiu a luz do banheiro, acendeu algumas velas e um
incenso de cinamomo. Suavemente deixou o roupão escorregar por seu corpo. Sentiu
um calafrio de prazer. “Nossa! Que delícia!”
Delicadamente se
esticou na banheira e sentiu o aroma dos sais, começou a cantarolar algo que
tocava em sua estação de rádio favorita. Não lembrava o nome da música, mas
sabia que havia sido um sucesso no final dos anos setenta e início dos oitenta.
Jade ficou perambulando
e miando pela casa. Vez por outra aparecia na porta do banheiro para se
certificar se sua dona ainda estava em casa.
Entretanto Léo não
estava mais em seu banheiro, mas em algum lugar diferente. Era misterioso, mas
não inóspito. Ao seu redor havia damas de companhia que adicionavam água quente
ao tanque, no qual ela estava mergulhada.
— Está tudo bem,
senhora? Precisa de mais alguma coisa?
— Não ! — Ela
respondeu ainda espantada.
Após uma pequena agitação
na entrada do cômodo, irrompeu adentro um homem de traços fortes e másculos.
Tinha os olhos de azeviche, porque escuros; um queixo imponente, imperial;
moreno, sua pele brilhava com a luminosidade emanada das lamparinas de azeite
acesas pelo quarto de banho.
Ela dirigiu-lhe um
olhar interrogativo.
— Eu já disse a você
que não pode me impedir de participar das negociações com a rainha Kíria. Isso
é tão importante para mim, quanto o é para você!
Léo, ainda tomada pelo
susto de ter sido transportada para outra época, fez expressão de
desentendimento.
— Não se faça de
ingênua! Você sabe do que estou falando! Os campos de lavanda estão tanto nos
seus como nos meus planos. Minha família sempre os possuiu, mas por um
desatino, meu avó teve que se desfazer deles, vendendo-os para o pai da rainha
Kíria. E agora, como ela é ambiciosa e pretende outras coisas,
principalmente poder e política, ofereceu-os a você por vingança!
— Esses campos são
muito interessantes para meus novos planos — Respondeu Léo laconicamente.
— Interessantes!
Ridículo! Esses campos são valiosíssimos, além de possuírem extrema beleza!
Leona, você não vai se apossar da herança da minha família! Eu peço que desista
do negócio com Kíria!
— Não vejo razão para
isso! — Assustou-se com o nome que aquele homem a chamara: Leona!
— Só passando por cima
de mim – Sven, duque de Thurgal –, você usurpará aquelas terras!
— Infelizmente não
posso fazer nada para ajudá-lo!
Nesse instante, uma das
damas se aproximou.
— Senhora, há um
mensageiro à porta. É da parte da rainha Kíria.
— Qual é a mensagem?
— Ela deseja vê-la
imediatamente em seu chateau.
— Está bem! Já separou
o que vou vestir?
— Sim, senhora,
venha...
— Com licença! Tenho
um compromisso! — Virou-se para Sven, que tinha uma expressão de esfinge.
As damas a secaram,
vestiram, empoaram e perfumaram. Quando Léo subiu no coche, não pôde acreditar:
parecia estar em algum lugar entre a França e a Suíça! Tudo era diáfano e suave
como nas pinturas que ela sempre admirava nos livros de história da arte!
Muito mais que isso!
Léo não pode conceber como fora parar naquele lugar. Acordou de seus devaneios
quando chegou ao chateau, onde estava
hospedada a rainha Kíria. Era magnífico! Majestoso!
Ao chegar foi
anunciada. Logo o mordomo a encaminhou à sala de cerimônias. Uma mulher esguia,
alta e muito bonita adentrou com um enorme sorriso.
— Oh, Leona! Ótimo que
tenha vindo! Quero tratar da venda dos campos de lavanda antes de retornar a meu reino...
— É! Sven invadiu
minha casa, dizendo que eu não tinha o direito de comprá-los. O que há com
aquele homem?
— Eu prometi
devolver-lhe os campos...
— Sei! E por que estou
envolvida?
— Porque impus uma
condição. Ele deveria se casar comigo por um ano, de modo que selássemos
acordos comerciais e políticos para fortalecer tanto meu país quanto o ducado a
ele pertencente! Ele simplesmente se recusou! Aquele romântico!
— Por que romântico?
— Ele me disse que não
era mercadoria, que não estava à venda e que não me amava! Pode! Quem está
falando em amor? Quero fortalecer meu país, dar condições de vida decente para
meu povo e ele pensando em romance, em felizes para sempre... coisa mais sem
propósito!
Léo devaneou um pouco,
lembrando-se do rosto de Sven. Surpreendente!
— Quais as condições
de venda?
— Eu repasso os campos
por um total de mil libras e toda a lavanda por duas mil libras!
— Hum... a lavanda
está um pouco acima do valor original...
— Mas esta lavanda não
é comum! Ela foi refinada por meio de várias mudas e depurada para ter um
aproveitamento de três por um, de modo que é a mais pura e fina já cultivada
nessa região. Com certeza você poderá superar o valor da compra, quando começar
o fornecimento da matéria-prima para os perfumistas mais talentosos da França.
— Não sei! Quando você
volta pra seu reino?
— Depois de amanhã.
— Amanhã dar-te-ei uma
resposta — redarguiu Léo sem ter a mínima ideia do que faria.
Ela deveria buscar
ajuda, mas onde. Ela não deixava de pensar em Sven e em sua audácia. Logo
encontrou resposta para sua indagação. Ao sair pediu ao cocheiro se dirigisse
para a casa de Sven. Fez-se anunciar e um duque intrigado foi recebê-la.
— Não esperava vê-la
tão rápido! — ironizou — Pensou no que eu disse?
— Com certeza! E vim
dizer que Kíria vai me vender os campos por mil libras e a lavanda por duas mil
libras!
Sven estancou
estupefato.
— Como?
— É isso! Por que não
se casou com Kíria, uma vez que queria tanto os campos?
— Eu disse a ela e
repito para você! Os campos podem estar à venda, mas eu não! Não vou me amarrar
a uma mulher que não amo!
— Mas seria somente
por um ano! — suspirou Léo, já completamente arrebatada pelo sentimento que Sven
demonstrara. “Como poderia haver um homem assim, sensível, romântico e ao mesmo
tempo másculo, magnético?”
Léo se pegou admirando Sven.
Sentiu-se tomada de carinho e romantismo por aquele homem! Por que não pudera
encontrar um homem assim, denso e forte.
Há muito tempo
acostumara-se a estar só... a se defender por si mesma. Sentiu vontade de ser
protegida. Com essa sensação cambaleou e Sven, rapidamente, vendo-a oscilar,
amparou-a em seus braços. Subitamente seus olhos se encontraram e ardentemente
seus lábios se tocaram num beijo quente e tímido que progrediu para algo
ardente e voraz. Léo sentiu sua tigresa interior urrar. Era como se a busca por
um parceiro tivesse terminado...



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