Você tem que estar preparado para se queimar em sua própria chama:
como se renovar sem primeiro se tornar cinzas? (Nietzsche)
Curiosamente, o seu nome pode dever-se a um equívoco de Heródoto ou Plutarco, historiador grego do século V a.C. Ao descrevê-la, pode ter designado o pássaro por fênix (phoenix), que é a palmeira (phoinix) sobre a qual a ave era representada naquela época.
Conforme alguns outros escritores gregos, a fênix viveria exatamente quinhentos anos, enquanto outros acreditavam que seu ciclo de vida era de 97.200 anos. Ao final de cada ciclo de vida, construiria para si um ninho de vergônteas perfumadas onde, no seu próprio calor, se queimaria. Após algum tempo, renasceria de sua cinzas.
Outra característica é sua força, que a faz capaz de transportar em voo cargas muito pesadas. Há lendas nas quais chega a carregar elefantes.
O MITO
A crença na ave lendária que renasce das próprias cinzas existiu em vários povos da antiguidade como gregos, egípcios e chineses. Em todas o significado é preservado: a perpetuação, a ressurreição, a esperança que nunca têm fim.
A crença na ave lendária que renasce das próprias cinzas existiu em vários povos da antiguidade como gregos, egípcios e chineses. Em todas o significado é preservado: a perpetuação, a ressurreição, a esperança que nunca têm fim.
EGITO
Os egípcios tinham a fênix por Bennu e estava relacionada a estrela Sótis – estrela de cinco pontas, flamejante –, que é pintada ao seu lado.
Os egípcios tinham a fênix por Bennu e estava relacionada a estrela Sótis – estrela de cinco pontas, flamejante –, que é pintada ao seu lado.
Cumprido o ciclo de vida, Bennu voava a à cidade egípcia de Heliópolis, pousava sobre a pira do deus Rá, ateava fogo em seu ninho e se deixava consumir pelas chamas, renascendo das cinzas.
Das cinzas erguia-se então uma nova fênix, que inseria os restos da sua progenitora num ovo de mirra e depositava-o no altar do Sol. Dizia-se que estas cinzas tinham o poder de ressuscitar um morto.
Posteriormente a fênix passou a simbolizar o deus Osíris. Era usado como emblema dos que regressavam de viagens longas e decorava monumentos erigidos por monarcas do Egito que voltam vitoriosos ao país.
GRÉCIA
Para os gregos, a fênix por vezes estava ligada ao deus Hermes e está representada em muitos templos antigos. Há um paralelo da fênix com o Sol, que morre todos os dias no horizonte para renascer no dia seguinte, tornando-se o eterno símbolo de morte e renascimento da natureza.
Para os gregos, a fênix por vezes estava ligada ao deus Hermes e está representada em muitos templos antigos. Há um paralelo da fênix com o Sol, que morre todos os dias no horizonte para renascer no dia seguinte, tornando-se o eterno símbolo de morte e renascimento da natureza.
Os gregos parecem ter se baseado em Bennu, da mitologia egípcia, representado na forma de uma ave acinzentada semelhante à garça, hoje extinta, que habitava o Egito.
Hesíodo, poeta grego do século VIII a.C., afirmou que a fênix vivia nove vezes o tempo de existência do corvo, que tem uma longa vida. Outros cálculos mencionaram até 97.200 anos.
CHINA
Há registro na China sobre a fênix, cujo mito parece ter surgido a cerca de 4.000 anos a.C. no ciclo dos imperadores celestes.
Há registro na China sobre a fênix, cujo mito parece ter surgido a cerca de 4.000 anos a.C. no ciclo dos imperadores celestes.
Na cultura chinesa antiga, a fênix foi representada como uma ave maravilhosa e transformada em símbolo de felicidade, virtude, força, liberdade e inteligência. Sua plumagem apresentaria as cinco cores sagradas brilhantes: roxo, azul, vermelha, dourado e branco.
LITERATURA E DESCRIÇÕES HISTÓRICAS
Farid al-Din Attar em A linguagem dos pássaros descreve a fênix:
A fênix é um pássaro admirável e lindo que vive no Hindustão (subcontinente indiano). Não tem companheiro, vive só. Seu bico, muito comprido e liso, é todo furado, como a flauta, e tem quase cem furos. Cada furo produz um som, e em cada som há um segredo especial. Às vezes, ela cria música através dos furos e, ao ouvir as notas que ela emite meigas e plangentes pássaros e peixes se agitam e os mais ferozes animais caem em êxtase; depois, todos se calam. De uma feita, um filósofo visitou o pássaro e aprendeu com ele a ciência da música. A Fênix vive cerca de mil anos e sabe exatamente o dia em que vai morrer. Chegada a hora da morte, reúne à sua volta grande quantidade de folhas de palmeira e, desvairada entre as folhas, desfere gritos merencórios. Pelos furos do bico emite notas variadas e a música lhe sai do fundo do coração. Suas lamentações expressam a tristeza da morte, e ela treme qual uma folha. Ao som da sua trombeta, os pássaros e animais se aproximam para assistir ao espetáculo, desnorteados, e muitos morrem por lhes faltarem as forças. Enquanto ainda respira, a fênix bate as asas e eriça as penas, e, com isso, produz fogo. O fogo se espalha pelas copas das palmeiras, e tanto as frondes quanto o pássaro são reduzidos a carvões acesos e, logo, a cinzas. Mas depois que a derradeira chama tremeluz e se extingue, uma nova e pequena fênix surge das cinzas.
Nunca sucedeu a ninguém renascer após a morte? Ainda que vivesses tanto quanto a fênix, morrerias quando se enchesse a medida da tua existência. Os seus mil anos de vida estão cheios de lamentações, e ela permanece só, sem companheiro nem filhos, e sem contato com ninguém. Quando chega o fim, atira as próprias cinzas ao vento, de modo que se possa saber que ninguém escapa da morte, seja qual for o artifício que empregar. Aprende, pois, com o milagre da fênix. A morte é um tirano, mas precisamos tê-la sempre em mente. E, conquanto tenhamos muito que aguentar, isso é nada comparado ao morrer.
Heródoto em Histories, verso 2.73:
Existe outro pássaro sagrado, também, cujo nome é fênix. Eu mesmo nunca o vi, apenas figuras dele. O pássaro raramente vem ao Egito, uma vez a cada cinco séculos, como diz o povo de Heliópolis. É dito que a fênix vem quando seu pai morre. Se o retrato mostra verdadeiramente seu tamanho e aparência, sua plumagem é em parte dourado e em parte vermelho. É parecido com uma águia em sua forma e tamanho. O que dizem que este pássaro é capaz de fazer é incrível para mim. Voa da Arábia para o templo de Hélio (o sol). Dizem, ele encerra seu pai em um ovo de mirra e enterra-o lá. Isto é como dizem: primeiramente molda este ovo tão pesado quanto possa carregar, então abre cavidades no ovo e coloca os restos de seu pai nele, selando o ovo. E dizem, ele encerra o ovo no templo do sol no Egito. Isto é o que se diz que este pássaro faz.
Filóstrato em Life of Apollonius of Tyana, verso 3.49:
E a fênix, ele disse, é o pássaro que visita o Egito a cada cinco séculos, mas no resto do tempo ela voa até a Índia; e lá podem ser visto os raios de luz solar que brilham como ouro. Em tamanho e aparência assemelha-se a uma águia; e senta-se em um ninho; que é feito por ele nas primaveras do Nilo. A história do Aigyptos sobre ele é testificada pelos indianos também, mas os últimos adicionam um toque à história, que a fênix enquanto é consumida pelo fogo em seu ninho canta canções de funeral para si.
Ovídio em Metamorfoses, verso 15.385:
Estas criaturas (outras raças de pássaros) todas descendem de seus primeiros, de outros de seu tipo. Mas um sozinho, um pássaro, renova e renasce dele mesmo – a fênix da Assíria –, que se alimenta não de sementes ou folhas verdes, mas de óleos de bálsamo e gotas de olíbano. Este pássaro, quando os cinco longos séculos de vida já se passaram, cria um ninho em uma palmeira elevada; e as linhas do ninho com cássia, mirra dourados e pedaços de canela, estabelecida lá, inflama-se, rodeada de perfumes, termina a extensão de sua vida. Então do corpo de seu pai renasce uma pequena fênix, como se diz, para viver os mesmos longos anos. Quando o tempo reconstrói sua força ao poder de suportar seu próprio peso, levanta o ninho – berço seu e túmulo de seu pai – como imposição do amor e do dever, dessa palma alta e carrega-o através dos céus até alcançar a grande cidade do sol (Heliópolis, no Egito), e perante as portas do sagrado templo, sepulta-o.
Tácito em Anais, VI, 28:
No consulado de Paulo Fábio e L. Vitélio, depois de um longo decurso de anos, apareceu no Egito a fênix, maravilha que foi matéria para doutas dissertações dos naturais e dos gregos da época. Sobre alguns pontos são todos acordes, sobre outros falam com incerteza, como vou contar, pois vale a pena saber. Essa ave é consagrada ao sol, e pela forma e natureza das plumas é diferente de qualquer outras: nisto concordam os que a descreveram; mas a respeito do período de ano de seu reaparecimento variam as opiniões. Ficam geralmente o ciclo de quinhentos anos, e alguns pretendem que seja de mil quinhentos e sessenta e um, pois que as primeiras foram vistas nos reinados de Sesósides, de Amásis e mais tarde no de Ptolomeu, terceiro dos reis macedônios, tendo elas voado para a cidade de Heliópolis, com grande acompanhamento de aves, admiradas de sua estranha figura. Não há certeza, porém nos fatos da antiguidade: entre Ptolomeu e Tibério, decorreram menos de duzentos e cinquenta anos; e por isso alguns pensaram que não era esta a verdadeira fênix, nem procedente da Arábia, nem semelhante às de que rezam as antigas memórias. Portanto, conforme a tradição, quando, completo o número de anos, se avizinha a morte, a fênix faz em sua terra um ninho, que ela fecunda, e donde nascerá um filhote. Apenas cresce este, seu primeiro cuidado é sepultar o pai. Não o faz, porém, de qualquer maneira, mas, tomando certa quantidade de mirra e experimentando suas forças, quando se acha capaz de com o peso vencer a viagem, carrega o corpo do pai para o altar do sol e ali o queima. Tudo isto, entretanto, incerto e aumentado de fábulas, mas não se duvida de que às vezes esta ave é vista no Egito.
Voltaire em A princesa da Babilônia descreve esta ave fabulosa:
Era do talhe de uma águia, mas os seus olhos eram tão suaves e ternos quanto os da águia são altivos e ameaçadores. Seu bico era cor-de-rosa e parecia ter algo da linda boca de Formosante. Seu pescoço reunia todas as cores do arco-íris, porém mais vivas e brilhantes. Em nuanças infinitas, brilhava-lhe o ouro na plumagem. Seus pés pareciam uma mescla de prata e púrpura; e a cauda dos belos pássaros que atrelaram depois ao carro de Juno não tinham comparação com a sua.
[..]
Logo que ali se encontrou, o primeiro cuidado da princesa foi prestar ao seu querido pássaro as honras fúnebres que este lhe exigira. Suas belas mãos ergueram uma pira de cravo e canela. Qual não foi a sua surpresa quando, depois de espalhar sobre essa lenha as cinzas do pássaro, a viu acender-se por si mesma! Tudo se consumiu num instante. Só ficou, no lugar das cinzas, um grande ovo, de que viu sair o seu belo pássaro, mais esplêndido do que nunca. Foi o mais belo instante que a princesa experimentou em toda a vida; não havia senão outro que lhe pudesse ser mais caro: ela o desejava, mas não o esperava.
– Bem vejo – disse ela ao pássaro – que és a fênix de que tanto me haviam falado. Estou prestes a morrer de espanto e de alegria. Não acreditava na ressurreição; mas a minha ventura convenceu-me.
– A ressurreição, Alteza, – disse-lhe a fênix – é a coisa mais simples deste mundo. Não é mais surpreendente nascer duas vezes do que uma. Tudo é ressurreição no mundo; as lagartas ressuscitam em borboletas, uma semente ressuscita em árvore; todos os animais, sepultados na terra, ressuscitam em ervas, em plantas, e alimentam outros animais, de que vão constituir em breve uma parte da substância: todas as partículas que compunham os corpos são transformadas em diferentes seres. É verdade que sou o único a quem o poderoso Orosmade concedeu a graça de ressuscitar na sua própria natureza.
Para Chevalier e Gheerbrant em seu Dicionário de símbolos a fênix é:
Como o símbolo da ressurreição, que aguarda o defunto depois do julgamento das almas se ele houver cumprido devidamente os ritos e se sua confissão negativa foi julgada como verídica. É por isso que toda a Idade Média fez da fênix o símbolo da ressurreição de Cristo e, às vezes, da natureza divina – sendo a natureza humana representada pelo pelicano.
Juan-Eduardo Cirlot no Dicionário de Símbolos conceitua:
Fênix – ave mítica do tamanho da águia, adornada com certos traços de faisão. Diz a lenda que ao ver próximo o seu fim, formava um ninho com madeiras e resinas aromáticas, que expunha aos raios do sol para que ardessem e nestas chamas se consumia. Da medula de seus ossos nascia outra ave fênix. Na tradição turca, recebe o nome de kerkés. Os relatos persas dão-lhe o nome de simorgh. Igual a outros aspectos, simboliza a periódica destruição e recriação. Wirtz dá um sentido psicológico a este ser fabuloso ao dizer que todos possuímos em nós uma fênix que nos permite sobreviver a cada instante e a vencer cada uma das mortes parciais a que chamamos sonho ou mudança. No ocidente cristão, significa o triunfo da vida eterna sobre a morte. Em alquimia, corresponde à cor vermelha, à regeneração da vida universal e à finalização da obra.
De acordo com Lima Júnior:
A fênix é descrita por muitos autores clássicos com uma incrível precisão, ainda que as descrições não sejam completamente coincidentes. Entretanto, uma série de características são comuns. Praticamente todos coincidem, por exemplo, nos brilhos desprendidos pelo corpo da ave e em sua plumagem, que admitem ser da cor de ouro avermelhado.
Apesar da nítida associação existente entre a fênix e a cidade de Heliópolis, os autores antigos sabiam que esta ave não procedia do Egito, e jamais entraram em acordo sobre a verdadeira morada deste ave. Para Tácito e Heródoto, seu lugar de residência era a Arábia; os poetas Ovídio e Marcial a situavam na Assíria. Aristides e Ausônio, por outro lado, afirmam ser essa ave procedente da Índia.
[...]
De acordo com autores latinos, a fênix está associada a uma ave solar hindu chamada cátedro, cujo canto se equipara ao da fênix. Pousada no alto de uma árvore, sua musicalidade é tão alta e clara que se escuta do bosque inteiro. Na China antiga, foi inventado o cheng, instrumento musical em forma de fênix, na tentativa de reproduzir seu canto.
Seja como for, tais opiniões divergentes mostram o quanto a lenda da ave fênix estava difundida no mundo antigo, e que para os antigos não havia outro animal nem ave igual a ela.
Atualmente os estudiosos creem que a lenda tenha surgido no Oriente e foi adaptada pelos sacerdotes do sol em Heliópolis como uma alegoria da morte e renascimento diários do astro-rei.
No início da era cristã, a fênix foi ligada ao renascimento e à ressurreição. Neste sentido, representa o Cristo ou o iniciado, que recebe uma segunda vida em troca daquela que sacrificou. Na arte cristã, a fênix renascida tornou-se símbolo popular da ressurreição de Jesus.
O mito da fênix está, portanto, intrinsecamente ligado à máxima filosófica da Lei de Lavoisier: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”.
A vida longa da fênix e o seu dramático renascimento das próprias cinzas transformaram-na em alegoria, em arquétipo da imortalidade e do renascimento espiritual inseridos no inconsciente coletivo.
Dessa forma, no decorrer da nossa existência, passamos por vários ciclos nos quais morremos e renascemos várias vezes. Acidentes, traumas, perdas, rompimentos, frustrações e crises, ou quaisquer outras situações dolorosas, são primordiais para o nosso desenvolvimento. Precisamos aprender, assim como a fênix, a enterrar a pessoa que fomos, as velhas crenças.
Ao renascer, assim como a fênix, já não somos mais a mesma pessoa de antes. Devemos então ressurgir das cinzas para a amplitude de possibilidades, uma nova fase repleta de mudanças significativas, uma mudança de paradigma pessoal, uma total transformação.
Referências
ATTAR, Farid al-Din. A linguagem dos pássaros. São Paulo: Attar Editorial, 1987. Disponível em: <http://nokhooja.files.wordpress.com/2010/08/conferencia-dos-passaros1.pdf>. Acesso em: 23 jan. 2013.
CHEVALIER, J.; GHEERBRANT, A. Dicionário de símbolos: mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números. 15. ed. rev. e aum. Rio de Janeiro: J. Olympio, 2000. 996 p.
FÊNIX. In: WIKIPEDIA: a enciclopédia livre. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Fênix>. Acesso em: 22 jan. 2013.
GREGÓRIO, Sérgio Biasi. Fênix. In: _________. Dicionário de mitologia. Disponível em: <https://sites.google.com/site/dicionariodemitologia/fênix>. Acesso em: 23 jan. 2013.
GUISELINE, Dora. O arquétipo da fênix: palestra. 2009. Disponível em: <http://www.slideshare.net/doraguiseline/o-arqutipo-da-fenix>. Acesso em: 19 fev. 2013.
LIMA JÚNIOR, Francisco Chagas Vieira. Apontamentos as representações do mito da ave fênix: indícios na historiografia antiga, no imaginário na Antiguidade oriental e clássica, nas escrituras hebraicas e no Cristianismo antigo. Disponível em: <http://www.webartigos.com/artigos/apontamentos-as-representacoes-do-mito-da-ave-fenix-indicios-na-historiografia-antiga-no-imaginario-na-antiguidade-oriental-e-classica-nas-escrituras-hebraicas-e-no-cristianismo-antigo/14356>. Acesso em: 19 fev. 2013.
VOLTAIRE. A princesa de Babilônia. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/cv000002.pdf>. Acesso em: 19 fev. 2013.





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