Autêntico perfume
Capítulo dois
Às quinze horas
pontualmente Léo adentrou a sala de reuniões da Charme Limitada. Laura havia
solicitado um encontro de explanação completa do lançamento do perfume.
Sua equipe havia se
esmerado com a apresentação. Eles fariam uma demonstração em vídeo das imagens
que seriam veiculadas inicialmente para o pré-lançamento, etapa de
despertamento do público-alvo para o desejo de comprar .
Léo aguardou Shirlei
sinalizar quando estivesse tudo pronto para a apresentação. Aguardavam então a
chegada de Laura. A equipe de Léo estava bastante animada. O material ficara
pronto em tempo recorde. E a arte estava primorosa.
Léo observava a tudo
tranquila, mas não conseguia se fixar. À sua frente só enxergava o rosto de Sven,
forte e marcante. Onde estaria aquele homem? Será que ele seria uma criação dr sua mente? Deus, como aquilo tudo fora acontecer? Delírio? Sonho?
Alucinação? Parecia tão real! Essas questões povoavam a mente de Léo. Suavemente
respirou e pensou que precisava reencontrar Sven! Sua respiração diminuiu sensivelmente! Necessitava rever aquele rosto! Tudo
começou a desfocar. Houve uma certa escuridão.
— Sei o que
pretende... quer me envolver, de modo que esqueça a ameaça que fiz a você,
Leona! — Sven desvencilhou-se dela, ainda trêmulo de desejo! O que quereria aquela mulher
com esses jogos de sedução?
— Mas...
— Não vou me enredar
por sua beleza! Eu pretendo recuperar os campos! E vou fazê-lo.
Léo entrou em desespero.
Precisava explicar tudo a Sven: quem era, de onde viera. A fúria de Sven a
atemorizou. Por um instante teve o homem de sua vida nos braços, beijara-o.
Agora ele parecia outro, em completo desvario! Não era aquilo que Léo
desejara ao retornar. Dirigiu-se para a sacada. Precisava ganhar tempo. Sven assustou-se
com essa atitude.
— O que pretende? Vem
até mim e agora foge? Não sou homem para joguetes, Leona!
— Por que me trata de
forma tão dura?
Sven estancou na porta
de acesso ao cômodo.
— Você vem até minha
casa... fala a respeito da venda dos campos, da negociação com Kíria, da
necessidade de minha ajuda e depois se insinua, dando-me um beijo!
— Não tive a
intenção... simplesmente aconteceu!
— Ai, as mulheres!
Todas cheias de artimanhas!
— Por que tanta
amargura? Você foi enganando por alguém? Quem zombou de você?
— Agora tenta adivinhar
meus pensamentos...
— Espere um momento, Sven!
Quero entender por que você me trata assim, principalmente porque vim pedir sua
ajuda. Não pretendia ofendê-lo! Vou tentar explicar o que acontece. Leo
explanou sobre sua época, sobre sua vida e sobre como fora transportada. Sven a
ouvia, mas tinha no olhar um misto de incredulidade e de zombaria.
— Você tentando me
convencer que vem de outra época?
— Sim... e somente
retornei para revê-lo. Aqueles poucos momentos de conversa em meu quarto de
banho, o beijo que trocamos, sua personalidade marcaram minha alma a fogo.
Desejei ardentemente voltar... jamais encontrei um homem como você: forte e
sensível, etéreo e denso. Eu queria desesperadamente tocá-lo! Mas, quando
volto, o que você faz é somente agredir, acusar! Eu não sou Kíria! Ela
manipula, joga para conseguir o que quer. Eu não sou assim. Eu busco o
equilíbrio, estar bem! Não quero modificar ninguém, quero aprender, obter o
melhor!
Sven estava lívido! A
zombaria havia sido substituída por algo como pena.
— Lamento, Leona! Sua
história beira à loucura! Infelizmente não acredito em nada do que acaba de me
contar! O que quero é que saia da negociação dos campos, deixando o caminho
livre para que eu os recupere.
— Não sei o que houve
com você! Nem o porquê dessa insensibilidade! Realmente acho que me
enganei! Achei que havia encontrado o homem da minha vida! Estava disposta
abrir mão de qualquer coisa para provar. Agora vejo o equívoco. Você é como
todos os outros! Egoísta e extremado! Não consegue discernir quando te dizem a
verdade! Quanto aos campos... já tomei minha decisão! Vou comprá-los! O preço
está um pouco além, mas se o que Kíria diz é verdade, logo recuperarei o
investimento.
Sven esbugalhou os
olhos! O que aquela mulher queria, meu Deus? Outra louca? Ou atriz? Que
história criativa. Transporte de outra época! Homem da sua vida!
— Sinto, Leona, mas é
o que penso! Não posso coadunar com mentiras e adulações.
— Está ótimo! Acho que
já falamos o bastante... Adeus!
— Como adeus?
— Eu estou indo
embora, preciso retornar. Tenho negócios importante a tratar!
Sven entendeu que esses
negócios seriam relativos aos campos. Leona irrompeu rumo à porta. Não devia
ter-se iludido... Sven acabou mostrando sua verdadeira face! Como se enganara
tanto! Seu coração dava pulos! Como explicar tudo aquilo! Era irreal, mas
estava acontecendo.
Lembrava-se de quando
era criança! Possuía uma amiga invisível: Lilibeth. Era uma princesa medieval
que lhe contava histórias de capa e espada. Léo ficava extasiada. Imaginava
como essas histórias ocorriam: seus detalhes, coloridos e personagens.
Lilibeth, às vezes, ajudava com uma descrição específica de cada ambiente, de
cada paisagem.
Por que a lembrança de
Lilibeth ressurgira nesse momento? Seus irmãos não prestavam atenção nela.
Tentava entrar nas brincadeiras, mas logo eles corriam alegando que era pequena
demais. No começo corria atrás, entretanto depois passou a brincar
distraidamente só. Foi então que surgiu Lilibeth. Ela estava folheando um livro
de contos sobre princesas, cavaleiros e feiticeiros. Viu o desenho de Lilibeth.
A princípio achou-o parecido com ela própria, mas depois percebeu algumas diferenças:
os cabelos longos negros, os olhos azulados como as hortênsias e um leve sinal
acima do lábio.
Aquela menina se
aproximou dela e perguntou o que ela fazia. Léo se assustou. A garota vestia um
longo vestido de veludo marrom, calçava botinhas também marrons, usava uma
tiara de flores nos cabelos cacheados e possuía a pele branca como leite.
Ela ficou temerosa, mas
acalmou-se e decidiu dividir seu mundo com Lilibeth, que contou-lhe sobre sua
família, seu reino e suas aventuras.
Léo passou a ficar mais
feliz, mesmo estando distante dos irmãos. As horas divididas com Lilibeth
preenchiam sua necessidade de atenção.
O tempo inexoravelmente
passou e Lilibeth foi habitar o mundo das sombras, das lembranças e, logo
depois, foi esquecida. As obrigações do mundo adulto, principalmente, ajudaram
nesse esquecimento. Léo então compreendeu o que estava acontecendo. Estava
usando o mesmo mecanismo de criança: isolamento e fantasia. Talvez fosse a
pressão demasiada no trabalho!
Carlos tocou-lhe o
ombro, tentando dizer-lhe algo. Quanto tempo havia decorrido? Ele explicou que
a reunião fora suspensa, porque Laura havia resolvido chamar o representante europeu para discutir os detalhes do lançamento internacional do
perfume.
Houve um atraso no voo
vindo da França. Léo respirou fundo! Ainda estava tentando se recuperar do
segundo encontro com Sven, mas não conseguia acreditar que seu castelo havia se
desfeito no ar. Que decepção!
Shirlei orientou a
equipe sobre o atraso e sobre o que deveriam fazer enquanto aguardavam... Já
era perto das dezessete horas, quando Laura sorridente entrou na sala seguida
por um homem lindo!
— Como vai Leonarda?
Espero que não tenhamos feito vocês esperarem muito! Você sabe imprevistos
acontecem!
— Claro!
— Quero apresentar a
você o sócio internacional, nosso representante na Europa. Ele tem larga
experiência no campo da perfumaria, mas não é francês. É suíço! Sr. Rudi Notz!
Leonarda estendeu a mão
automaticamente para cumprimentar o sócio, quando seu sangue gelou nas veias. Estava
diante de um sósia de Sven. Léo perdeu a voz e mal conseguiu sussurrar alguma
coisa.
Carlos e Shirlei
avisaram que estava tudo pronto para a apresentação. Léo gaguejou e respirou
fundo. “Meus Deus! O que estava acontecendo?”
Tudo giraria em torno
da marca do contratipo para evitar falsificações ou contrabando. Seriam
estabelecidos pontos para a propaganda de rua (cartazes, outdoors, busdoor),
colantes somente com a palavra “Desire”
ou com a frase “ Deixe-se envolver...”. A campanha inicial seria também
veiculada na televisão e em revistas com anúncios específicos. A expectativa de
investimento inicial seria de cerca de dez milhões de dólares, abrangendo o
lançamento internacional inclusive com inserções em revistas de bordo ao redor
do mundo.
Léo frisou que
realmente o custo era alto, mas a previsão de vendas estava orçada em oitenta
milhões de dólares no varejo. Essa projeção levava em conta somente o público-alvo:
mulheres modernas, economicamente ativas com idade a partir de vinte e sete
anos. É claro que outras faixas etárias poderiam ser atingidas, devido ao
despertamento do desejo íntimo de cada mulher de se identificar com o produto.
Laura ficou satisfeita
com as explicações. Era justamente o que buscava sobriedade e ousadia bem
dosadas. Rudi permaneceu quieto todo o tempo da explanação. Parecia
contrariado! Após os elogios de Laura, educadamente interrompeu:
— Acredito que os
detalhes administrativos estão bem cobertos. Entretanto não ouvi nenhum
comentário sobre a logística para o atendimento da demanda. O que o mercado
mais absorve são novidades! Seria importante antes de gerar uma demanda de
desejo em adquirir, seria conhecer o potencial de fidelização. Há perfumes no
mercado que há muito já deveriam ter sido substituídos ou descontinuados, mas
que não o foram, porque a clientela não aceita! As tentativas de troca foram
inúteis! No mínimo vexatórias!
Léo ficou aturdida. Rudi tinha não somente a
aparência de Sven, mas também a atitude e o timbre de voz característicos:
forte e apaixonado. Sentiu seu corpo tremer. Aquilo não poderia estar
acontecendo...

Nenhum comentário:
Postar um comentário