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A paixão pelo mundo árabe surgiu nas tardes de minha infância, ao assistir o seriado Jeannie é um Gênio, pois, junto à comédia dos anos cinquenta, havia números de dança árabe, como nos filmes egípcios. Em maio de 2000, comecei a tomar aulas com Rosilene Santos. De início, achei que não conseguiria, pois, na realidade, a dança trabalha o feminino. Aos poucos e com paciência fui descobrindo a beleza de cada movimento, de cada acorde musical. Percebi que, apesar de ser um pouco diferente, a cultura árabe não está tão distante assim de nós, brasileiros. Em 2005 iniciei os estudos do árabe para entender as letras das músicas árabes. Unido a esse conhecimento, veio o interesse pela música e cultura árabes. Em 2006 fui admitida como professora no Zahra Studio de Dança do Ventre, principiando minha jornada como mestra/pesquisadora da dança oriental. Em 2008 fundei o Harém Centro de Danças no Sudoeste e, em 2010 fiz a transferência da escola para Taguatinga. Busco entender a dança, de modo geral, e a dança do ventre, de modo específico, como forma de o ser humano se expressar num mundo conturbado e caótico. E posso afirmar que cada passo tem trazido gratas surpresas e plena alegria!

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Autêntico perfume: um romance - capítulo 2

Autêntico perfume 
Capítulo dois





Às quinze horas pontualmente Léo adentrou a sala de reuniões da Charme Limitada. Laura havia solicitado um encontro de explanação completa do lançamento do perfume.
Sua equipe havia se esmerado com a apresentação. Eles fariam uma demonstração em vídeo das imagens que seriam veiculadas inicialmente para o pré-lançamento, etapa de despertamento do público-alvo para o desejo de comprar .
Léo aguardou Shirlei sinalizar quando estivesse tudo pronto para a apresentação. Aguardavam então a chegada de Laura. A equipe de Léo estava bastante animada. O material ficara pronto em tempo recorde. E a arte estava primorosa.
Léo observava a tudo tranquila, mas não conseguia se fixar. À sua frente só enxergava o rosto de Sven, forte e marcante. Onde estaria aquele homem? Será que ele seria uma criação dr sua mente? Deus, como aquilo tudo fora acontecer? Delírio? Sonho? Alucinação? Parecia tão real! Essas questões povoavam a mente de Léo. Suavemente respirou e pensou que precisava reencontrar Sven! Sua respiração diminuiu sensivelmente! Necessitava rever aquele rosto! Tudo começou a desfocar. Houve uma certa escuridão.

— Sei o que pretende... quer me envolver, de modo que esqueça a ameaça que fiz a você, Leona! Sven desvencilhou-se dela, ainda trêmulo de desejo! O que quereria aquela mulher com esses jogos de sedução?
Mas...
Não vou me enredar por sua beleza! Eu pretendo recuperar os campos! E vou fazê-lo.
Léo entrou em desespero. Precisava explicar tudo a Sven: quem era, de onde viera. A fúria de Sven a atemorizou. Por um instante teve o homem de sua vida nos braços, beijara-o. Agora ele parecia outro, em completo desvario! Não era  aquilo que Léo desejara ao retornar. Dirigiu-se para a sacada. Precisava ganhar tempo. Sven assustou-se com essa atitude.
O que pretende? Vem até mim e agora foge? Não sou homem para joguetes, Leona!
Por que me trata de forma tão dura?
Sven estancou na porta de acesso ao cômodo.
Você vem até minha casa... fala a respeito da venda dos campos, da negociação com Kíria, da necessidade de minha ajuda e depois se insinua, dando-me um beijo!
Não tive a intenção... simplesmente aconteceu!
Ai, as mulheres! Todas cheias de artimanhas!
Por que tanta amargura? Você foi enganando por alguém? Quem zombou de você?
Agora tenta adivinhar meus pensamentos...
Espere um momento, Sven! Quero entender por que você me trata assim, principalmente porque vim pedir sua ajuda. Não pretendia ofendê-lo! Vou tentar explicar o que acontece. Leo explanou sobre sua época, sobre sua vida e sobre como fora transportada. Sven a ouvia, mas tinha no olhar um misto de incredulidade e de zombaria.
Você tentando me convencer que vem de outra época?
Sim... e somente retornei para revê-lo. Aqueles poucos momentos de conversa em meu quarto de banho, o beijo que trocamos, sua personalidade marcaram minha alma a fogo. Desejei ardentemente voltar... jamais encontrei um homem como você: forte e sensível, etéreo e denso. Eu queria desesperadamente tocá-lo! Mas, quando volto, o que você faz é somente agredir, acusar! Eu não sou Kíria! Ela manipula, joga para conseguir o que quer. Eu não sou assim. Eu busco o equilíbrio, estar bem! Não quero modificar ninguém, quero aprender, obter o melhor!
Sven estava lívido! A zombaria havia sido substituída por algo como pena.
Lamento, Leona! Sua história beira à loucura! Infelizmente não acredito em nada do que acaba de me contar! O que quero é que saia da negociação dos campos, deixando o caminho livre para que eu os recupere.
Não sei o que houve com você! Nem o porquê dessa insensibilidade! Realmente acho que me enganei! Achei que havia encontrado o homem da minha vida! Estava disposta abrir mão de qualquer coisa para provar. Agora vejo o equívoco. Você é como todos os outros! Egoísta e extremado! Não consegue discernir quando te dizem a verdade! Quanto aos campos... já tomei minha decisão! Vou comprá-los! O preço está um pouco além, mas se o que Kíria diz é verdade, logo recuperarei o investimento.
Sven esbugalhou os olhos! O que aquela mulher queria, meu Deus? Outra louca? Ou atriz? Que história criativa. Transporte de outra época! Homem da sua vida!
Sinto, Leona, mas é o que penso! Não posso coadunar com mentiras e adulações.
Está ótimo! Acho que já falamos o bastante... Adeus!
Como adeus?
Eu estou indo embora, preciso retornar. Tenho negócios importante a tratar!
Sven entendeu que esses negócios seriam relativos aos campos. Leona irrompeu rumo à porta. Não devia ter-se iludido... Sven acabou mostrando sua verdadeira face! Como se enganara tanto! Seu coração dava pulos! Como explicar tudo aquilo! Era irreal, mas estava acontecendo.
Lembrava-se de quando era criança! Possuía uma amiga invisível: Lilibeth. Era uma princesa medieval que lhe contava histórias de capa e espada. Léo ficava extasiada. Imaginava como essas histórias ocorriam: seus detalhes, coloridos e personagens. Lilibeth, às vezes, ajudava com uma descrição específica de cada ambiente, de cada paisagem.
Por que a lembrança de Lilibeth ressurgira nesse momento? Seus irmãos não prestavam atenção nela. Tentava entrar nas brincadeiras, mas logo eles corriam alegando que era pequena demais. No começo corria atrás, entretanto depois passou a brincar distraidamente só. Foi então que surgiu Lilibeth. Ela estava folheando um livro de contos sobre princesas, cavaleiros e feiticeiros. Viu o desenho de Lilibeth. A princípio achou-o parecido com ela própria, mas depois percebeu algumas diferenças: os cabelos longos negros, os olhos azulados como as hortênsias e um leve sinal acima do lábio.
Aquela menina se aproximou dela e perguntou o que ela fazia. Léo se assustou. A garota vestia um longo vestido de veludo marrom, calçava botinhas também marrons, usava uma tiara de flores nos cabelos cacheados e possuía a pele branca como leite.
Ela ficou temerosa, mas acalmou-se e decidiu dividir seu mundo com Lilibeth, que contou-lhe sobre sua família, seu reino e suas aventuras.
Léo passou a ficar mais feliz, mesmo estando distante dos irmãos. As horas divididas com Lilibeth preenchiam sua necessidade de atenção.
O tempo inexoravelmente passou e Lilibeth foi habitar o mundo das sombras, das lembranças e, logo depois, foi esquecida. As obrigações do mundo adulto, principalmente, ajudaram nesse esquecimento. Léo então compreendeu o que estava acontecendo. Estava usando o mesmo mecanismo de criança: isolamento e fantasia. Talvez fosse a pressão demasiada no trabalho!
Carlos tocou-lhe o ombro, tentando dizer-lhe algo. Quanto tempo havia decorrido? Ele explicou que a reunião fora suspensa, porque Laura havia resolvido chamar o representante europeu para discutir os detalhes do lançamento internacional do perfume.
Houve um atraso no voo vindo da França. Léo respirou fundo! Ainda estava tentando se recuperar do segundo encontro com Sven, mas não conseguia acreditar que seu castelo havia se desfeito no ar. Que decepção!
Shirlei orientou a equipe sobre o atraso e sobre o que deveriam fazer enquanto aguardavam... Já era perto das dezessete horas, quando Laura sorridente entrou na sala seguida por um homem lindo!
Como vai Leonarda? Espero que não tenhamos feito vocês esperarem muito! Você sabe imprevistos acontecem!
Claro!
Quero apresentar a você o sócio internacional, nosso representante na Europa. Ele tem larga experiência no campo da perfumaria, mas não é francês. É suíço! Sr. Rudi Notz!
Leonarda estendeu a mão automaticamente para cumprimentar o sócio, quando seu sangue gelou nas veias. Estava diante de um sósia de Sven. Léo perdeu a voz e mal conseguiu sussurrar alguma coisa.
Carlos e Shirlei avisaram que estava tudo pronto para a apresentação. Léo gaguejou e respirou fundo. “Meus Deus! O que estava acontecendo?”
Tudo giraria em torno da marca do contratipo para evitar falsificações ou contrabando. Seriam estabelecidos pontos para a propaganda de rua (cartazes, outdoors, busdoor), colantes somente com a palavra “Desire” ou com a frase “ Deixe-se envolver...”. A campanha inicial seria também veiculada na televisão e em revistas com anúncios específicos. A expectativa de investimento inicial seria de cerca de dez milhões de dólares, abrangendo o lançamento internacional inclusive com inserções em revistas de bordo ao redor do mundo.
Léo frisou que realmente o custo era alto, mas a previsão de vendas estava orçada em oitenta milhões de dólares no varejo. Essa projeção levava em conta somente o público-alvo: mulheres modernas, economicamente ativas com idade a partir de vinte e sete anos. É claro que outras faixas etárias poderiam ser atingidas, devido ao despertamento do desejo íntimo de cada mulher de se identificar com o produto.
Laura ficou satisfeita com as explicações. Era justamente o que buscava sobriedade e ousadia bem dosadas. Rudi permaneceu quieto todo o tempo da explanação. Parecia contrariado! Após os elogios de Laura, educadamente interrompeu:
Acredito que os detalhes administrativos estão bem cobertos. Entretanto não ouvi nenhum comentário sobre a logística para o atendimento da demanda. O que o mercado mais absorve são novidades! Seria importante antes de gerar uma demanda de desejo em adquirir, seria conhecer o potencial de fidelização. Há perfumes no mercado que há muito já deveriam ter sido substituídos ou descontinuados, mas que não o foram, porque a clientela não aceita! As tentativas de troca foram inúteis! No mínimo vexatórias!
Léo ficou aturdida. Rudi tinha não somente a aparência de Sven, mas também a atitude e o timbre de voz característicos: forte e apaixonado. Sentiu seu corpo tremer. Aquilo não poderia estar acontecendo...

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