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A paixão pelo mundo árabe surgiu nas tardes de minha infância, ao assistir o seriado Jeannie é um Gênio, pois, junto à comédia dos anos cinquenta, havia números de dança árabe, como nos filmes egípcios. Em maio de 2000, comecei a tomar aulas com Rosilene Santos. De início, achei que não conseguiria, pois, na realidade, a dança trabalha o feminino. Aos poucos e com paciência fui descobrindo a beleza de cada movimento, de cada acorde musical. Percebi que, apesar de ser um pouco diferente, a cultura árabe não está tão distante assim de nós, brasileiros. Em 2005 iniciei os estudos do árabe para entender as letras das músicas árabes. Unido a esse conhecimento, veio o interesse pela música e cultura árabes. Em 2006 fui admitida como professora no Zahra Studio de Dança do Ventre, principiando minha jornada como mestra/pesquisadora da dança oriental. Em 2008 fundei o Harém Centro de Danças no Sudoeste e, em 2010 fiz a transferência da escola para Taguatinga. Busco entender a dança, de modo geral, e a dança do ventre, de modo específico, como forma de o ser humano se expressar num mundo conturbado e caótico. E posso afirmar que cada passo tem trazido gratas surpresas e plena alegria!

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

MORTE: o fim ou a renovação de oportunidades?

A morte é algo intangível, mas fortemente palpável. Ela nos separa dos entes queridos. Faz-nos questionar o sentido da vida. Qual nossa postura diante da morte? Como você realmente a vê?

Particularmente a mim ela não assusta! Surpreendentemente se apresenta como uma oportunidade! Ensejo para repensar o que sou como ser humano, o que tenho feito e como as pessoas a meu redor – amigos ou não – me veem.

Você já tentou imaginar estar presente ao seu velório? Observar ali as pessoas que foram prestar as últimas homenagens. O que elas diriam? Como agiriam? Se consternariam? E seus parentes? Estariam comovidos? Em paz? Com saudades? Todas as respostas a essas perguntas jazem no modo como você levou a vida.

Será que haverá uma multidão ao dar o último adeus? Ou haverá um aguerrido último parente e o coveiro ao pé da sua última morada? Terá valido a pena ter sido tolo ao desprezar o valor do outro, por este estar em situação desencorajadora. Será que o desprezo com que encarou a vida não foi devolvido no último suspiro? É algo a se pensar!

Afirma-se que no momento do rompimento do fio de prata, que é a vida, podemos ver nossa existência passar diante de nossos olhos como um filme. Qual será o mote desse filme? O sarcasmo? O romance? A alegria? A esperança? O regozijo? É com certeza um curta-metragem, uma vez que sempre há planos a se cumprir, objetivos a perseguir.

Sendo a morte algo inexorável, porque evitar encará-la como mais uma fase da vida ou mesmo um portal, onde exista algo ainda inexplorado. O digníssimo leitor pode achar o assunto fúnebre, mórbido, mas é algo que está marcado para o final de nossa jornada.

Esse assunto não é triste, nem tão pouco agourento. Ao contrário, permite-me rever objetivos e metas e ensaiar algum desapego àquilo que a sociedade moderna, as grandes corporações e os meios de comunicação de massa – a famosa mídia – determinaram que é essencial ao homem. Esse apego deve ser revisto! Esqueçamos o amor ao dinheiro e a ter mais; esqueçamos o desenfreio da competição desnecessária e nociva; esqueçamos o egoísmo aniquilador de não ver o outro.

Apeguemo-nos sim à gentileza, ao cuidado, às boas maneiras, aos valores que tornam a alma humana maior. Apeguemo-nos ao respeito às limitações do outro. Não há aqui, de forma alguma a pregação ao autoaniquilamento, pois é o egoísmo às avessas, como um automartírio. Isso também é um veneno na alma, pois abre caminho para a soberba.

E a soberba é esposa do orgulho e amante do autocontentamento doentio. Eles amalgamados levam à perdição, à falta de direção pela consequente não percepção do outro. Demonstram crua e cruelmente o egoísmo plantado originariamente no coração da raça humana lá no Éden.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Inverno, Primavera, Verão, Outono....

Morgana despertou com preguiça. Era dia já! Não tinha conseguido conciliar sono. Lembrava-se do momento em que encontrara Ângelo.
Era um homem maravilhoso! Moreno, sensual, lábios fortes, queixo bem marcado. O que a atraíra mesmo foi seu jeito diferente! Era másculo, mas não machista. Possuía um delicadeza sob sua pele de macho. Como cheirava bem! Seus cabelos eram negros, um pouco longos.
Pode perceber que já o conhecia e sentir que ele a conhecia também. Seu coração implorava que ela confessasse sua paixão, mas Morgana titubeava. Era estranho, pois nunca se intimidara. As situações a colocavam de uma forma ou de outra diante de escolhas, as quais Morgana fazia destemidamente. Entretanto ali estava ela olhando o teto, pensando naquele homem que a desestabilizava.
Ela queria tê-lo em seus braços, beijá-lo, possuí-lo, ser possuída por ele. O que ela gostaria era poder abrir o coração e falar tudo.
Morgana havia conhecido Ângelo em uma vernissage de um amigo comum. Ele fora prestigiar o trabalho de seu colega na galeria, da qual ela era a manager. A exposição foi um sucesso! A presença de público e da crítica tinha sido bastante significativa.
Ângelo foi apresentado a Morgana por Patrick, um artista talentoso, mas excêntrico. Patrick ciumentamente insinuou que Ângelo o estava espionando. Ângelo sorriu e tratou de tranquilizá-lo.
Morgana apresentou a galeria a Ângelo e entregou-lhe um release do que havia acontecido e o que estava programado até o fim do ano. Ele ficou impressionado com a competência dela e pediu então a oportunidade de expor ali também seus traços de carvão.
Morgana então solicitou que ele lhe entregasse os documentos de praxe para exposição de trabalhos: currículo e portfólio do que já tivera exposto. Ângelo prometeu entregá-los na sexta-feira.
— Podemos tomar um café e então poderei fazer uma análise preliminar de seu trabalho.
— Ok!
— Então agendaremos: sexta-feira, 17 horas no Café LeBleu, um bistrô que fica na esquina da Avenida Ipiranga com a Rio Branco.
— Estarei lá, obrigado! — Finalizou Ângelo despedindo-se com um aperto de mão firme.
Morgana tentou disfarçar sua excitação. Seria algo diferente, pois nunca tratara de negócios fora do ambiente da galeria. Intuiu que seria uma experiência interessante.
Os dias se passaram e logo a sexta-feira chegou. Às 17 horas, Morgana chegou ao LeBleu um pouco nervosa. "Será que ele seria pontual?" Para sua surpresa ele a aguardava no hall.
— Pontual! — Ele exclamou surpreso.
— Não gosto de fazer ninguém esperar!
— O café é maravilhoso! Elegante, mas sem caretice!
— Que bom que gostou! Trouxe o material?
— Claro! Aqui está! Espero que seja esclarecedor. — Ângelo entregou-lhe o currículo e o portfólio.
— Muito interessante! — Folheou o portfólio impressionada.
O trabalho de Ângelo era forte. Explorava bem as nuances da luz com a utilização do carvão.
— Por que você escolheu o carvão?
— Bom, para mim o carvão é parecido com o ser humano. Feito de madeira, que se queima. É impressionante a beleza que se pode obter de algo que se julgava esgotado. Além disso, acho uma destinação mais gloriosa do que alimentar fornos e caldeiras...
— Muito legal! Nunca havia pensado sob esse aspecto. Você é mesmo surpreendente!
— Verdade? Tenho estado um pouco deprimido esses tempos, pois não tenho conseguido expressar toda a extensão dos meus sentimentos em minhas obras. Isso me frusta... É como se fosse magma vulcânico ativo, mas que não tem por onde extravasar.
— Talvez eu seja a fresta na crosta terrestre pela qual você poderá fluir — Morgana tentou disfarçar o sentido dúbio de suas palavras.
— Então tenho chances de expor em sua galeria?
— Claro! Gostaria de programar sua apresentação para o início do próximo ano. Tem trabalhos prontos?
— Sim! Finalizei um série chamada Inverno. São dez quadros que apresentam a tristeza e a sobriedade do inverno. Acho que traduz bem o meu estado de espírito.
— Tem projetos a viabilizar?
— Pensei em estabelecer uma viagem anti-horária pelas estações do ano. O que acha? Inverno, primavera, verão, outono...
— Ideia agradável... mas como você conseguirá retratar a luz do verão e a exuberância da primavera?
— Pensei em variar um pouco, sair da mesmice do carvão e trabalhar a luz em si.
— Parece-me criativo! Você já esboçou algo?
— Comecei a fazê-lo logo depois de conversar contigo na vernissage do Patrick e marcarmos o café. Realmente você já está pavimentando o caminho para a expressão do que está preso aqui. — Apontou para o peito.
Morgana estremeceu. Nossa! Como um homem poderia ser tão sensual, tão desarmado?
— Gostaria de ver os croquis!
— Claro! Amanhã mesmo! Gostaria que viesse até meu ateliê, que também é minha casa.
— Que tal às 19 horas? Você tem algum compromisso?
— Não!?! Então está combinado! Amanhã às 19 horas. Aqui está o endereço. — Ângelo entregou-lhe um cartão pessoal.
— Estarei lá! Tenho que ir agora! Preciso organizar a desmontagem das obras do Patrick.
— Vejo-a amanhã!
Morgana despediu-se de Ângelo e foi para a galeria. A caminho não deixou de fantasiar sobre ele e ela fazendo amor apaixonadamente. O cheiro de Ângelo a instigava. Não conseguiu pensar em outra coisa senão no futuro encontro. Sofia, sua assistente, chegou a comentar que ela estava diferente. Morgana tentou disfarçar.
Ao chegar em casa não teve ânimo para mais nada além de se jogar na cama após um banho relaxante. Só pensava em uma coisa: Ângelo... Ângelo. Foi difícil conciliar sono. A TV não apresentava nada interessante. Tentou ouvir rádio, ler. Adormeceu.
O dia seguinte chegou entristecido por uma garoa, mas isso não abalou a alegria de Morgana. A rotina foi esmagadora: projetos, propostas, currículos, eventos... entretanto o encontro com Ângelo a fazia sorrir e prosseguir.
Morgana confessava a si mesma suas segundas intenções. Todo detalhe em Ângelo a excitava: cabelos, ombros, mãos. As coxas eram divinas! Aquele homem parecia que fora talhado a cinzel por um discípulo de Michelângelo.
O que mais a atraía nele era sua jovialidade. Bastante espirituoso, Ângelo havia narrado como fora o surgimento do artista e a reação da família. Ele não tinha vergonha de nada. Possuía noção perfeita de suas fraquezas, de sua sensibilidade. Morgana ruborizou excitada. Meu Deus! O que esse homem está fazendo comigo?
As 19 horas demoraram a chegar! Morgana tocou o interfone pontualmente, a porta destravou. Os lances de escada pareceram uma eternidade. Quando chegou, a porta do apartamento estava entreaberta.
— Ângelo... — Chamou.
— Aqui! — Morgana ouviu a voz de Ângelo, que vinha de outro cômodo. Dirigiu-se até lá. Ângelo estava organizando seus trabalhos.
— Desculpe não tê-la recebido na porta, mas é o vulcão dentro de mim, entrando em erupção, graças à minha linda fresta.

Morgana tremeu com o sorriso esfuziante de Ângelo. Desarmou-se inteira, suavemente entreabriu os lábios e não se permitiu pensar em outra coisa se não nos lábios de Ângelo tocando sua pele, boca, corpo. Ela tremia... estava completamente entregue. Instintivamente Ângelo debruçou-se e beijou-a. Primeiro suave e sensualmente; depois, sôfrego e apaixonado.
Morgana suspirou e gemeu de prazer. Ao que Ângelo aproximou-a mais de si, beijando-a apaixonadamente. Ele gemeu de prazer e Morgana o abraçou forte. Não havia palavras. Os lábios de Ângelo tocaram seu colo. Suas mãos cálidas exploraram suas costas, suas coxas. Morgana não conseguia se conter o desejo. Ângelo retirou-lhe as roupas aos beijos.
— Ângelo... — Sussurrou.
— Minha querida! — Nesse momento, Morgana sentiu a pressão do sexo de Ângelo contra seu corpo. Ela arfou de desejo. Ângelo beijou-lhe as costas e lambeu-lhe os seios. Morgana tremia de prazer. Acariciava as costas de Ângelo, delineava seus músculos, sua anatomia...
— Você é uma delícia sabia? — sussurrou ela em seu ouvido.
Ângelo estremeceu e virilmente a possuiu. O encontro foi arrebatador. Dois corpos vibrando num balé único de desejo e paixão. Entregaram-se a um pas de deux de gestos e sons até um gran finale de êxtase e relaxamento.

ABAIXO A DITADURA DO EGOÍSMO!


Será que é possível colocar-se no lugar do outro? Tentar entender como o outro pensa? O que o outro precisa? Buscar o caminho do encontro? São perguntas que ficam no ar. Podemos constatar hoje que as pessoas não estão parando para refletir, para ver o outro.
É a criança no semáforo, o deficiente que não consegue se locomover por causa das barreiras, o idoso que não tem mais a agilidade nos passos. Por que a pressa, a ganância, a compulsão, a necessidade de competir, ter mais e ser maior? Por que a necessidade de se apossar do que ainda não nos foi permitido possuir?

Em pleno terceiro milênio, a selvageria deveria ter sido deixada junto ao túmulo de nossos ancestrais Homo sapiens. Em um momento no qual a ciência mais avança, o ser humano descobre o que outrora estava oculto; terrivelmente a depressão, a tristeza, a solidão mais grassam e desgraçam a alma humana.

Por que não voltar à simplicidade?

Voltar a perceber a beleza e o encantamento do pôr do sol, a alegria do amanhecer ensolarado após uma noite chuvosa, o murmurar tranquilo do rio que segue inexorável o seu curso, a leveza e despercebimento dos primeiros passos do bebê, a descoberta estampada no rosto da criança que explora o mundo a seu redor, o sabor do doce favorito, o aconchego do abraço de quem se reencontra após um tempo longe, o som da voz do ente querido distante que se queria perto.

Fatos, eventos e gestos que após segundos não são mais, assim como transitória é a vida e o que se leva dela.

Saiamos à rua contra a indiferença, o preconceito, a caretice.

Caretice, sim!, porque ter boas atitudes e ser um ser humano atinge os caretas de plantão, que pregam que nada deve ser estabelecido, que tudo deve ser aniquilado e que a ética não deve existir.

São caretas, sim!, pois essas coisas não deveriam sair de moda: o respeito pelos mais velhos, a alegria de ajudar o necessitado, o fervor de que algo pode ser feito. O que vale muito mais do que figurar em peças publicitárias tocantes com cenas e imagens escolhidas.


Abaixo a ditadura do egoísmo!

Abaixo os grilhões que impedem a gentileza e a empatia das pessoas!

Que nós possamos encostar nossas cabeças no travesseiro e, sim, dormir, e não descansar em paz.





(Publicado em 29 de setembro de 2009).

Meu pai, um pioneiro de Brasília! : homenagem no Dia dos Pais.

As lembranças e reminiscências costumam povoar as datas comemorativas. Esse é também o caso do Dia dos Pais. São feitas comparações do pai mais comum com super-heróis. É relembrado que ele é um exemplo a ser seguido, um homem a ser respeitado. Nos tempos atuais, nos quais os papéis estão totalmente subvertidos, o que podemos esperar?
 
Ao ver meu velho pai com 73 anos, vítima de AVC fulminante que o deixou com o lado direito paralisado, sinto o peso dessas tradições. Acostumado a ir e vir sem dar muita satisfação a quem quer que seja, agora queda-se desolado sobre uma cadeira de rodas. Debate-se onde teria errado e por que está nessa situação. Incrivelmente não se julga culpado por estar assim.

É extremamente difícil vê-lo nessa situação. Quando somos pequenos, acreditamos que nossos pais são eternos, que vão viver para sempre. É um choque, crescer e descobrir que tudo não passa de tola fantasia! Por que tanta correria? Tanto desespero? Se o fim inexorável virá a todos irremediavelmente!

Em uma tarde qualquer, quis saber de meu pai como se tornou um pioneiro de Brasília. Foi depois de sair de sua terra – Crateús no Ceará – e tentar a sorte no Rio de Janeiro como baiano – todo nordestino no Rio é baiano –, rumou para o Planalto Central após a convocação de Juscelino Kubitschek. Buscava o sonho e a esperança.

        "Em meio à terra virgem desbravada
na mais esplendorosa alvorada
 feliz como um sorriso de criança
           um sonho transformou-se em realidade
"
 (Brasília, Capital da Esperança)


Chegou à terra de chão vermelho pungente em 1957. Mal pousou a mala e começou a trabalhar como servente na concretização dos traços de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer. Trabalhou muito e só foi rendido 48 horas depois, quando o apontador de obras o liberou. Dormiu um dia e meio para descansar. Nessa terra promissora vários homens foram enterrados com seus sonhos no concreto derramado em Brasília. O entusiasmo e a força do homem simples vindo de várias partes do país impediam a preocupação com a segurança no trabalho, além de escusos interesses. Algo inconcebível hoje em dia. Passou depois a ajudante de carpinteiro e, logo depois, a carpinteiro.

Foi interessante ouvir como suas refeições a base de marmita eram feitas encimado no caminhão de tijolos que atravessava o lago Paranoá ainda enxuto. Recorda a alegria do momento em que soltaram as águas para enfim encher o lago sem o qual não sobreviveríamos hoje.
No altiplano, antevisto por D. Bosco, não ocorria só trabalho! Havia diversão na Cidade Livre (hoje Núcleo Bandeirante)! Revelou que era um pé de valsa nos bailes de forró no Ceará e que se divertia nos momentos livres. Foi em uma dessas festas dos candangos, que ele viu pela primeira vez D. Angélica, garbosa e atraente. Ele ficou apaixonado!

Junto com as festas, surgiam também eventos de confronto com a polícia da época. O trabalho e o dinheiro atraíam não só sonhos e esperanças, mas também a cobiça, a trapaça e a violência.

Eram tempos românticos, do Presidente Bossa-nova! Era época dos versos de Vinícius e Jobim! Cinquenta anos em cinco!


Deste Planalto Central, desta solidão que em breve se transformará em cérebro das altas decisões nacionais, lanço os olhos mais uma vez sobre o amanhã do meu país e antevejo esta alvorada com uma fé inquebrantável e uma confiança sem limites no seu grande destino. (Juscelino Kubitschek)



As promessas foram adiadas quando o céu nublou em torno da intolerância e do medo. A princesinha do cerrado e a princesinha do mar viram seus súditos serem perseguidos, mortos ou expulsos de sua presença. Elas se quedaram num torpor, como se tivessem se ferido na agulha da roca, após a maldição da bruxa. Esse sono durou longos vinte anos. Alguns poucos resistiram e lutaram para derrubar os muros da violência e da ignorância. Hoje tentam esmaecer as cores de algo que foi brutal.

A princesinha do cerrado é cinquentona, mas ainda sonha que todos possam visualizar o esplendor do seu horizonte de pujança e alegria.

                            ... quando Brasília fez maior a sua glória
com esperança e fé
   era o gigante em pé...
     (Hino oficial de Brasília)



Seu Manoel ainda queda-se desolado em sua cadeira de rodas. Tempos que não voltam mais...


(Publicado em 13 de agosto de 2009).

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Peripécias de um menino que se recusava a crescer: notas sobre a biografia de Michael Jackson.

 Em meio à comoção causada pela morte do "rei da música pop" recentemente (25-6-2009), li a biografia não oficial: Michael Jackson: a magia e a loucura, de J. Randy Taraborrelli. Segundo está explicado na obra, são trinta anos de pesquisas em noticiários e bibliotecas, além de centenas de entrevistas. Algumas delas com o próprio Michael Jackson. O autor elabora um mosaico com detalhes sobre a carreira do astro e, principalmente, seu histórico pessoal e familiar. Escrito de forma bastante atraente, o livro é bastante abrangente. Não há como se desvencilhar dele até o ponto final posto por Taraborrelli.

A pergunta que não sai da minha mente: Por que não consegui parar de pensar no astro Michael Jackson? Por que a sensação de vazio como se tivesse perdido um ente querido muito próximo a mim? Por que o pesar de não ter estado perto para falar ou trocar segredos?
Nascida em 1965, adorava os Jackson Five, que despontaram no Brasil no longínquos anos setenta em apresentações e desenhos animados. Michael era um garoto bonito de sorriso singelo, que arrasava ao lado de seus irmãos. Continuou fazendo parte da minha vida até os idos de 1996. Depois nos desvinculamos, seguimos os nossos caminhos: ele como um megastar da música norte-americana e eu assumi meu lugar no mundo adulto: trabalho, relacionamentos etc. Saber de sua morte tão repentina foi um susto! Algo inacreditável!

Ao debulhar a biografia, percebi algumas coisas que faziam com que me identificasse com ele. Negro, maravilhoso, sensual, apaixonado. Ele era grande! Cativante! A narrativa descreve sua personalidade, seus amores, seus percalços, sua família, sua sensibilidade. Simplesmente maravilhoso!

O que ele tinha a ver comigo? A sensibilidade, o isolamento, o medo, a fantasia, o limite no céu. Ele foi além, mergulhou e se esqueceu que não sabia nadar em algo desconhecido.

Rever suas fotos, seus clipes, sua dança, sua beleza, sua energia no palco foi uma redescoberta de mim mesma. Saber de sua intensidade, de seus medos, de suas fraquezas, aproximou-me dele. Percebi ali descrito um ser humano: cheio de neuroses, de medos, de quereres e de frustrações. Alguns conjeturaram acerca de sua vida; outros, acerca de sua morte. Pessoas mentiram, outras talvez tenham falado a verdade.



O que é o fenômeno Michael Jackson?

A criança prodígio que se perpetuou num homem com uma carreira relativamente longeva? A perspicácia de se camaleonar e se reinventar em gestos, caras e mudanças moldadas a bisturi? O estabelecimento de um mito perpetuado com mais de 750 milhões de discos vendidos em sua carreira? Os pecados e as mentiras forjadas para manter-se na crista da onda? A sensibilidade inata e cristalina que, de tão frágil, precisava se refugiar no "maravilhoso mundo de Michael": a Neverland, a Terra do Nunca? A inspiração para acreditar que numa sociedade segregacionista, as barreiras podiam ser rompidas e um novo tempo podia ser estabelecido?



Talvez todas essas coisas juntas amalgamem o mito Michael Jackson e massacrem o homem que se vê no espelho e não gosta do que se tornou: o homem por trás da máscara, triste, solitário e essencialmente humano.

Perceba isso, observando seu olhar nas fotos. Há uma tristeza patente e profunda. Choramingava a infância perdida... Mas e daí? Seria possível no final das contas separar o mito do homem?

O fato marcadamente certo em sua vida era a obstinação, a clareza em meio à loucura e a desdita de não aceitar-se humano e, portanto, falho e sujeito a erros.

Era virginiano de 25 de agosto de 1958, nascido em Gary, Indiana – nos Estados Unidos –, de família pobre, negra e numerosa em época de apartheid social. O que aquele garotinho esperava da vida? O que teria sonhado para si e sua família? Descobriu-se, ou descortinou-se, um cavalheiro, um homem delicado, frágil.

O que fascina mais: o poder da fragilidade ou a fragilidade do poder?
Michael Jackson (ou para os tablóides ingleses Jacko Wacko – Jack Doido) é a superação que assusta e fascina.

Nós atacamos aquilo que não compreendemos e alvejamos aquilo que não podemos alcançar. Ele estava além do nosso entendimento, além do seu tempo e, portanto, não mereceu compreensão ou tolerância. Mas ele se foi... incompreendido, incompleto!

Ele buscava o perfeito, a Perfeição. Talvez a tenha encontrado agora que não está mais aqui. Adeus Michael!


REFERÊNCIAS
TARABORRELLI, J. Randy. Michael Jackson: a magia e a loucura. Rio de Janeiro: Globo, 2009.

(Publicado em 31 de julho de 2009).

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Solidão, dicotomia, seres quase mitológicos e armistício

Se a solidão fosse uma pessoa ou, pelo menos, a personificação de alguém, diria:



  Sou dicotomia, estou subdividida em duas partes...
Dois seres antagônicos, quase mitológicos, conseguem subverter a minha ordem unida.






Em meu interior estão – e labutam entre si – a Calmaria e a Tormenta. Como seres diametralmente opostos podem se fixar em um mesmo lugar e ao mesmo tempo?

Segundo o dito popular, após a tempestade sempre vem a bonança; porém não é o que vejo na incomensurável imensidão azul do meu oceano particular.

A ausência de ventos demonstra-se por saber-me sozinha e não dependente de ninguém, ou, grosseiramente, por não poder contar com ninguém, além de mim mesma. A falta de movimento das ondas perpassa a sensação de alívio, pois de certa forma esse "mundo" sofre mutações ou alterações que são perfeitamente controláveis. Estar só é algo confortável, porque há controle, organização... Impostos, mas existem!

A Calmaria fica a olhar sua imagem refletida no espelho das águas e, por vezes, tenta tocá-la sem sucesso, como se fosse Narciso – louco enfeitiçado que queria possuir-se a qualquer custo e definha em flor... Triste destino!

A agitação advém de nunca poder descansar, repousar e baixar a guarda. É estar sempre em alerta, à espreita. Isso é inervante e cansativo. As tentativas de soltar o leme foram infrutíferas, causando insegurança e desconforto. Houve o reforço para se postar ao lado do cabo da nau. Respirar nessa posição não é permitido; sorrir, relaxar, quase um insulto. Não, não solta! Você vai se dar mal! – grita a Tormenta – Depois você vai vir chorando arrependida de que não devia ter feito etc., etc.

A Tormenta é irônica e chega a ser má, às vezes. Julga-se forte e perspicaz, porque faz muito barulho, ribomba sua voz aos berros tal qual Zeus, senhor do todos os deuses, que tem o relâmpago na mão. Tal atitude é maçante. Ingenuamente acredita proteger os tesouros arduamente conquistados, que estão de algum modo depositados no fundo desse mar profundo. O temporal violento os colocou lá!

De que adianta ricos tesouros que não são admirados por outros? É o objeto sem finalidade, sem sentido...

A saída para a loucura da dicotomia é o cessar-fogo, o armistício, a busca da paz. Tão inerente ao ser humano quanto essa luta interna, que o segue desde o surgimento da Humanidade sobre a Terra, é a busca do equilíbrio. E é nela que devemos nos concentrar para amenizar os estragos causados por essa guerra!

(Publicado em 10 de junho de 2009).

Que se despedestalize o amor! (em defesa de um possível amálgama com a solidão)


 
Ah, o Amor! L’amour toujours l’amour!

O que falar do amor que já não tenha sido dito, declamado ou cantado? Buda, Maomé ou Dalai Lama... o que já não foi dito por eles sobre o amor: a base de tudo, a esperança para a alma humana. A raposa de Saint-Exupéry sutilmente sinaliza o caminho das pedras: "cativa-me".

Cantado em versos e decantado em prosa, o amor é objeto de estudo de quase todas as especialidades – da Neurolinguística à Psicologia, passando pela Literatura –: amor paternal, amor filial, amor erótico, amor fraternal, amor sublime amor.

Fragorosamente marca posição oposta à solidão: prima pobre despojada, descamisada e sem-teto no reino das musas da mitologia. Execrada e colocada a prêmio, foi exilada, mas insiste em se fazer presente na vida do ser humano.

Enquanto o amor simboliza a eternidade e a pujança, a solidão faz calçar sapatos de chumbo o homem para mantê-lo com os pés bem plantados na realidade de que ele está de passagem.

Como o tempo urge, faz-se necessário então buscar o eterno, o que é belo, o que é aceitável, o que é neurótico... É arrebatador deleitar-se nos braços do amor e acreditar que se pode voar e assim mudar o curso da história como um super-herói (ou super-heroína). É ilusório! Tal promessa esvai-se.

A solidão não é tão cruel quanto aparenta ser, não precisa ser combatida ou aniquilada. A solitude nos faz realizar que somos seres humanos e finitos e que, por isso, devemos prestar atenção no que vale a pena: na delícia turquesa de um dia de sol; nos carneirinhos de nuvens tangidos suavemente pelo vento; na garoa fina que lembra a cena de um filme qualquer; na tempestade que ribomba sua fúria entre relâmpagos, trovões e ventania; na tristeza suave das folhas caídas numa tarde de outono sopradas ao léu pelo vento.

Pode haver algo que mais evoque a solidão do que o vento?

Procure relembrar os momentos em que se sentiu só ou se lembrou da solidão em sua vida. Com certeza sempre há a presença do vento: desde uma brisa gélida até um vendaval.

O vento evoca também a transitoriedade, pois ele está aqui e depois não mais. Pode estar em todos os lugares, de diversas formas sem pedir licença depois deixa de o ser.

É a solidão que nos redime e nos traz para a realidade. Despedestalizemos o amor como o conhecemos e o queremos. Façamos um amálgama dele com a solidão, que detestamos e execramos. Talvez daí nasça algo novo, sem desesperança e sem desestruturação.

Um amor especial que não escravize, que não seja orgulhoso, que não limite, que não responsabilize em demasiado e que conheça a finitude da natureza humana.

(Publicado em 2 de junho de 2009).

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Tragédia de um encantador de multidões: impressões sobre o documentário “Simonal: ninguém sabe o duro que dei ”.

As canções de Simonal – negro boa-pinta, cheio de ginga – sempre estiveram na voz de minha mãe: eu era neném, não tinha talco, mamãe passou açúcar em mim. Canções que – esparsas lembranças remotamente colocadas num canto – vinham à baila de quando em vez:

Wilson Simonal


 Mó... num patropi,
Abençoá por Dê
E boni
Por naturê (Mas que belê!)
Em feverê (em feverê)
Tem carná (tem carná)
Eu tenho um fus e um viô
Sou flamê
E tenho uma nê
Chamá Terê.



Muito mais do que uma homenagem, Simonal: ninguém sabe o duro que dei busca entender porque um fenômeno popular acabou relegado ao ostracismo da cultura brasileira e ao esquecimento das mentes dos brasileiros, além de iniciar o resgate de um  proeminente nome da música brasileira.

Desfilam diante da câmera personalidades como Artur da Távola, Boninho, Carlos Miéle, Chico Anysio, Jaguar, Nelson Motta, Pelé, Toni Tornado, Ziraldo, além do anônimo contador Raphael Viviani – pivô da história que iniciou a derrocada de Simonal.

Ver Wilson Simonal de Castro à minha frente nas cores e imagens dos vívidos anos sessenta – nos quais eu ainda engatinhava – foi uma surpresa e uma alegria. Senti-me seduzida e completamente arrebatada pelo carisma daquele negro alto, cheio de malemolência e personalidade.

A narrativa articulada e fluida apresenta uma síntese dos fatos e do modo de vida no Brasil daquela época, além de uma crítica contumaz à mídia e seu papel – a mesma que o elevou, depois o destruiu sem pestanejar. Reservadamente – ou suavemente, diria – toca-se na questão do racismo, sempre sub-reptício no modus vivendi brasileiro. Ressalta-se a postura irreverente e acintosa de Simonal por não se colocar no seu lugar, um contraponto à de Pelé, que, segundo Jaguar ironiza, não é negro.

A partir da explanação do caso do contador sequestrado e espancado no Dops, a história fulgurante do encantador de multidões muda de tom, entristece.

O fato é que não houve comprovação de que Simonal tenha sido conivente com a ditadura, delatando seus pares. Ele aparece numa triste figura, cantando seus antigos sucessos e mostrando os documentos oficiais que isentam seu nome. Nelsinho Motta reafirma que ele não tinha entregado ninguém, porque efetivamente ele não sabia de nada e porque ele queria mesmo era curtir o sucesso, o dinheiro e suas mulheres.

Acima de tudo, Simonal: ninguém sabe o duro que dei é uma reafirmação de resgate do homem e do artista Wilson Simonal diante da história da cultura brasileira. É o que, com galhardia, pedem seus filhos Max de Castro e Wilson Simoninha.

FICHA TÉCNICA:

LANGER, Micael; LEAL, Calvito; MANOEL, Cláudio. Simonal: ninguém sabe o duro que dei. Brasil, 2009. 98 min. Produção de TV Zero, Globo Filmes, Zohar Cinema.

(Publicado em 21 de maio de 2009).

Brasília da República Brasil: uma alegoria sobre o 49º aniversário de Brasília-DF.


Brasília é efetivamente uma linda mulher com belas curvas e segurança que beira o exagero. O olhar é enigmático e perscrutador, que nos atrai e intimida. Às vezes sábia, às vezes impune, faz o que quer e não dá qualquer satisfação.
Fêmea, sabe usar seus dotes para conquistar e encantar: a silhueta delicadamente estruturada; a leveza de deslizar entre as pessoas sem vulgaridade ou apelação; a aparência impecavelmente ajustada às tendências da moda com muito estilo.

Brasília é admirável! Seus cabelos longos se perdem pela linha do horizonte de um azul estonteante. Mergulhar em suas madeixas é permissivamente sensual.
Sincera e voluptuosa, não esconde seus desejos e vontades, espalhando-se preguiçosamente pela sala de estar refrescada pelos parques e áreas verdes. De sua ampla sala de jantar decorada com monumentos a céu aberto, é uma anfitriã receptiva.
Na alquimia de seu caldeirão, sintetiza as várias facetas de si mesma e das pessoas que vão a seu encontro. Serve a todos as delícias ricamente testadas em sua cozinha, onde há vários assentos para conversas, risadas, segredos e café.

Nascida para o coroamento de uma época de apogeu e desenvolvimento, ainda ingênua, viu marchar por suas ruas a dureza da intolerância. Ao chegar à nubilidade, reviu seu príncipe (exilado pela bruxa malvada) retornar e desposá-la num final feliz.
Com a frouxidão dos papéis, vem buscando lugar num relacionamento que se propõe longo e promissor. Está alegre e renovada, pois aos trancos e barrancos sabe que está no caminho certo.
Muitos insistem em sugerir retoques com vistas a apagar as marcas que o tempo deixou, entretanto sua experiência e capacidade de aprender imprimem-lhe um charme especial a ponto de qualquer homem desejar perder-se em seus braços macios e ardentes.

(Publicado em 22 de abril de 2009).

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Dia das mães, alimento e memória afetiva

Este artigo foi escrito por mim em 17 de abril de 2009, após um dia das mães cheios de lembranças da minha falecida mãe:




Dona Angélica, descendente de índios e negros, nasceu no interior da Bahia. Depois de desiludir-se em sua juventude, resolveu embarcar no sonho de JK de construir Brasília. Chegou à cidade em 1964, quando a negra nuvem da ditadura se espalhava pelo território nacional, e logo começou a trabalhar como empregada doméstica. Pouco tempo depois conheceu seu Manoel, que se encantou com seu jeito matreiro. Casaram-se e tiveram três filhas, criadas com esforço e esmero, que frutificaram em três lindas sobrinhas. Essa descendência acarretou o comentário de que "homem na família, só por casamento".

Os encontros prazerosos sempre aconteciam ao redor da mesa de almoço da casa de seu Manoel e de dona Angélica.
A lista de iguarias daria água na boca de qualquer paxá: bife à milanesa, carne assada, feijão com tempero especial, arroz branquinho com cheiro e sabor de alho, macarrão portentoso em sua simplicidade, feijão tropeiro capaz de parar um pelotão (ou seria quarteirão?). Além desses cheiros e sabores, há ainda as reminiscências da infância: a vitamina de abacate com pão francês (às vezes recém-trazido da padaria), café com leite e biscoitos... algo, por assim dizer, distante no túnel do tempo.
Dona Angélica não nos delicia mais com suas iguarias tão perfeita e singelamente elaboradas. Talvez esteja a regalar São Pedro com biscoitos de polvilho fritos na hora ou talvez beijus (tapiocas) com manteiga recém-saídos de sua panela de alumínio batido.

A mais forte lembrança com certeza é a de um almoço oferecido em sua casa num dia de domingo com alguns convidados e um cardápio simples, mas deliciosamente preparado: arroz branquinho, feijão frescamente temperado, farofa com bacon estupendamente perfumada, salada maravilhosa e carne assada, que não ia ao forno nem tampouco à churrasqueira – uma incógnita para as filhas –, com muita alegria. Além do gosto inestimável do "muito obrigada, minha filha, por você estar aqui comigo", sem dúvida o tempero mais especial e inesquecível daquele dia e de muitos outros que se sucederiam.