As canções de Simonal – negro boa-pinta, cheio de ginga – sempre estiveram na voz de minha mãe: eu era neném, não tinha talco, mamãe passou açúcar em mim. Canções que – esparsas lembranças remotamente colocadas num canto – vinham à baila de quando em vez:
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| Wilson Simonal |
Mó... num patropi,
Abençoá por Dê
E boni
Por naturê (Mas que belê!)
Em feverê (em feverê)
Tem carná (tem carná)
Eu tenho um fus e um viô
Sou flamê
E tenho uma nê
Chamá Terê.
Muito mais do que uma homenagem, Simonal: ninguém sabe o duro que dei busca entender porque um fenômeno popular acabou relegado ao ostracismo da cultura brasileira e ao esquecimento das mentes dos brasileiros, além de iniciar o resgate de um proeminente nome da música brasileira.
Desfilam diante da câmera personalidades como Artur da Távola, Boninho, Carlos Miéle, Chico Anysio, Jaguar, Nelson Motta, Pelé, Toni Tornado, Ziraldo, além do anônimo contador Raphael Viviani – pivô da história que iniciou a derrocada de Simonal.
Ver Wilson Simonal de Castro à minha frente nas cores e imagens dos vívidos anos sessenta – nos quais eu ainda engatinhava – foi uma surpresa e uma alegria. Senti-me seduzida e completamente arrebatada pelo carisma daquele negro alto, cheio de malemolência e personalidade.
A narrativa articulada e fluida apresenta uma síntese dos fatos e do modo de vida no Brasil daquela época, além de uma crítica contumaz à mídia e seu papel – a mesma que o elevou, depois o destruiu sem pestanejar. Reservadamente – ou suavemente, diria – toca-se na questão do racismo, sempre sub-reptício no modus vivendi brasileiro. Ressalta-se a postura irreverente e acintosa de Simonal por não se colocar no seu lugar, um contraponto à de Pelé, que, segundo Jaguar ironiza, não é negro.
A partir da explanação do caso do contador sequestrado e espancado no Dops, a história fulgurante do encantador de multidões muda de tom, entristece.
O fato é que não houve comprovação de que Simonal tenha sido conivente com a ditadura, delatando seus pares. Ele aparece numa triste figura, cantando seus antigos sucessos e mostrando os documentos oficiais que isentam seu nome. Nelsinho Motta reafirma que ele não tinha entregado ninguém, porque efetivamente ele não sabia de nada e porque ele queria mesmo era curtir o sucesso, o dinheiro e suas mulheres.
Acima de tudo, Simonal: ninguém sabe o duro que dei é uma reafirmação de resgate do homem e do artista Wilson Simonal diante da história da cultura brasileira. É o que, com galhardia, pedem seus filhos Max de Castro e Wilson Simoninha.
FICHA TÉCNICA:
LANGER, Micael; LEAL, Calvito; MANOEL, Cláudio. Simonal: ninguém sabe o duro que dei. Brasil, 2009. 98 min. Produção de TV Zero, Globo Filmes, Zohar Cinema.
FICHA TÉCNICA:
LANGER, Micael; LEAL, Calvito; MANOEL, Cláudio. Simonal: ninguém sabe o duro que dei. Brasil, 2009. 98 min. Produção de TV Zero, Globo Filmes, Zohar Cinema.
(Publicado em 21 de maio de 2009).



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