A paixão pelo mundo árabe surgiu nas tardes de minha infância, ao assistir o seriado Jeannie é um Gênio, pois, junto à comédia dos anos cinquenta, havia números de dança árabe, como nos filmes egípcios.
Em maio de 2000, comecei a tomar aulas com Rosilene Santos. De início, achei que não conseguiria, pois, na realidade, a dança trabalha o feminino. Aos poucos e com paciência fui descobrindo a beleza de cada movimento, de cada acorde musical. Percebi que, apesar de ser um pouco diferente, a cultura árabe não está tão distante assim de nós, brasileiros.
Em 2005 iniciei os estudos do árabe para entender as letras das músicas árabes. Unido a esse conhecimento, veio o interesse pela música e cultura árabes.
Em 2006 fui admitida como professora no Zahra Studio de Dança do Ventre, principiando minha jornada como mestra/pesquisadora da dança oriental.
Em 2008 fundei o Harém Centro de Danças no Sudoeste e, em 2010 fiz a transferência da escola para Taguatinga.
Busco entender a dança, de modo geral, e a dança do ventre, de modo específico, como forma de o ser humano se expressar num mundo conturbado e caótico.
E posso afirmar que cada passo tem trazido gratas surpresas e plena alegria!
É
muito bom poder falar com você. Sinto sua falta. São dezenove
anos. Nossa! Não imaginei que pudesse ser tanto. Ainda cismo às vezes e
pergunto por que você me deixou tão cedo.
Às
vezes lembro da minha foto de admissão
da Câmara a alegria de expectativas concretizadas: ser chamada no concurso para
bibliotecário da Câmara dos Deputados e você. Isso foi nos idos de 1997.
Uau...
tanto tempo assim! Precisava chamar-lhe carinhosamente... então surgiu o apelido,
uma alcunha. Seu nome... João Cláudio! Mas para mim seria Joca... simplesmente
Joca. Ao ouvir seu nome dito bem baixinho, rapidamente lembrei do ator
Jean-Claude Van Damme... Ainda bem que foi traduzido, pois a forma francesa não
combinava em nada com um bom sobrenome brasileiro de origem portuguesa com
certeza.
As
lembranças...
Ah!
As lembranças! Quando você finalmente embarcou e avisou que estava a caminho...
Enchi-me de expectativa, pois essa é a postura dos que esperam. Seria um nonamestre
a te aguardar. Mas aos dois meses você enviou uma mensagem sem palavras, um
pouco avermelhada, súbita.
Claro
que embevecida, não prestei muita atenção... Talvez não o quisesse fazê-lo. Só
muito tempo depois de sua não chegada... Voltei àquele aviso! Joca quisera me
avisar sobre o evento eminentemente ocorrido a posteriori, mas eu desmentida, absorta, não percebi.
Desculpe-me
Joca, meu amor! Sim, meu amor! Como quisera ter meu coração disparado
avassaladoramente por esse amor incontido, absorto e incondicional. Subitamente
você foi impedido de me encontrar e fomos incapazes de colocar nosso amor em
gestos e palavras.
Entretanto
passados dez anos pude revê-lo ao longe... Em meu coração soube que era você...
Era bonito! Percebi lágrimas em seus olhos. Como aquilo me abalou! Não pude
secar suas lágrimas, não pude consolá-lo, tão pouco saber o porquê de tanta
tristeza. Esse pensamento me perseguiu até desaparecer no horizonte de minha
memória.
Logo
depois soube que Joca viera buscar a avó para acompanhá-lo em uma viagem a um
país distante, de onde não mais regressariam. Não senti ciúmes por Joca vir buscá-la
e, não a mim! Longe de mim tal sentimento... Afinal eram neto e avó!
Cismei
novamente com a lembrança de Joca. Como ele estará? E sua avó?
Foram
tão rápidos os dois meses nos quais me embriaguei com a ideia de encontrá-lo e
não sinalizei nada a respeito do meu amor! Os lábios ficaram selados entre a
alegria e a distância à espera um momento arrebatador...
Agora
a lembrança dele está novamente às voltas. E tenho que dizer nem que seja num
sussurro:
Você tem que estar preparado para se queimar em sua própria chama:
como se renovar sem primeiro se tornar cinzas? (Nietzsche)
Curiosamente, o seu nome pode dever-se a um equívoco de Heródoto ou Plutarco, historiador grego do século V a.C. Ao descrevê-la, pode ter designado o pássaro por fênix (phoenix), que é a palmeira (phoinix) sobre a qual a ave era representada naquela época.
Segundo ele, a fênix, cujo esplendor é sem igual, é um pássaro mítico de origem etíope dotado de extraordinária longevidade. Teria penas brilhantes – douradas e vermelho-arroxeadas – e seria do mesmo tamanho ou maior do que uma águia. Pode transformar-se também numa ave de fogo.
Conforme alguns outros escritores gregos, a fênix viveria exatamente quinhentos anos, enquanto outros acreditavam que seu ciclo de vida era de 97.200 anos. Ao final de cada ciclo de vida, construiria para si um ninho de vergônteas perfumadas onde, no seu próprio calor, se queimaria. Após algum tempo, renasceria de sua cinzas.
Outra característica é sua força, que a faz capaz de transportar em voo cargas muito pesadas. Há lendas nas quais chega a carregar elefantes.
O MITO
A crença na ave lendária que renasce das próprias cinzas existiu em vários povos da antiguidade como gregos, egípcios e chineses. Em todas o significado é preservado: a perpetuação, a ressurreição, a esperança que nunca têm fim.
EGITO
Os egípcios tinham a fênix por Bennu e estava relacionada a estrela Sótis – estrela de cinco pontas, flamejante –, que é pintada ao seu lado.
Cumprido o ciclo de vida, Bennu voava a à cidade egípcia de Heliópolis, pousava sobre a pira do deus Rá, ateava fogo em seu ninho e se deixava consumir pelas chamas, renascendo das cinzas.
Das cinzas erguia-se então uma nova fênix, que inseria os restos da sua progenitora num ovo de mirra e depositava-o no altar do Sol. Dizia-se que estas cinzas tinham o poder de ressuscitar um morto.
Posteriormente a fênix passou a simbolizar o deus Osíris. Era usado como emblema dos que regressavam de viagens longas e decorava monumentos erigidos por monarcas do Egito que voltam vitoriosos ao país.
GRÉCIA
Para os gregos, a fênix por vezes estava ligada ao deus Hermes e está representada em muitos templos antigos. Há um paralelo da fênix com o Sol, que morre todos os dias no horizonte para renascer no dia seguinte, tornando-se o eterno símbolo de morte e renascimento da natureza.
Os gregos parecem ter se baseado em Bennu, da mitologia egípcia, representado na forma de uma ave acinzentada semelhante à garça, hoje extinta, que habitava o Egito.
Hesíodo, poeta grego do século VIII a.C., afirmou que a fênix vivia nove vezes o tempo de existência do corvo, que tem uma longa vida. Outros cálculos mencionaram até 97.200 anos.
CHINA
Há registro na China sobre a fênix, cujo mito parece ter surgido a cerca de 4.000 anos a.C. no ciclo dos imperadores celestes.
Na cultura chinesa antiga, a fênix foi representada como uma ave maravilhosa e transformada em símbolo de felicidade, virtude, força, liberdade e inteligência. Sua plumagem apresentaria as cinco cores sagradas brilhantes: roxo, azul, vermelha, dourado e branco.
LITERATURA E DESCRIÇÕES HISTÓRICAS
Farid al-Din Attar em A linguagem dos pássaros descreve a fênix:
A fênix é um pássaro admirável e lindo que vive no Hindustão (subcontinente indiano). Não tem companheiro, vive só. Seu bico, muito comprido e liso, é todo furado, como a flauta, e tem quase cem furos. Cada furo produz um som, e em cada som há um segredo especial. Às vezes, ela cria música através dos furos e, ao ouvir asnotas que ela emite meigas e plangentes pássaros e peixes se agitam e os mais ferozes animais caem em êxtase; depois, todos se calam. De uma feita, um filósofo visitou o pássaro e aprendeu com ele a ciência da música. A Fênix vive cerca de mil anos e sabe exatamente o dia em que vai morrer. Chegada a hora damorte, reúne à sua volta grande quantidade de folhas de palmeira e, desvairada entre as folhas, desfere gritos merencórios. Pelos furos do bico emite notas variadas e a música lhe sai do fundo do coração. Suas lamentações expressam a tristeza da morte, e ela treme qual uma folha. Ao som da sua trombeta, os pássaros e animais se aproximam para assistir ao espetáculo, desnorteados, e muitos morrem por lhes faltarem as forças. Enquanto ainda respira, a fênix bate as asas e eriça as penas, e, com isso, produz fogo. O fogo se espalha pelas copas das palmeiras, e tanto as frondes quanto o pássaro são reduzidos a carvões acesos e, logo, a cinzas. Mas depois que a derradeira chama tremeluz e se extingue, uma nova e pequena fênix surge das cinzas.
Nunca sucedeu a ninguém renascer após a morte? Ainda que vivesses tanto quanto a fênix, morrerias quando se enchesse a medida da tua existência. Os seus mil anos de vida estão cheios de lamentações, e ela permanece só, sem companheiro nem filhos, e sem contato com ninguém. Quando chega o fim, atira as próprias cinzas ao vento, de modo que se possa saber que ninguém escapa da morte, seja qual for o artifício que empregar. Aprende, pois, com o milagre da fênix. A morte é um tirano, mas precisamos tê-la sempre em mente. E, conquanto tenhamos muito que aguentar, isso é nada comparado ao morrer.
Heródoto em Histories, verso 2.73:
Existe outro pássaro sagrado, também, cujo nome é fênix. Eu mesmo nunca o vi, apenas figuras dele. O pássaro raramente vem ao Egito, uma vez a cada cinco séculos, como diz o povo de Heliópolis. É dito que a fênix vem quando seu pai morre. Se o retrato mostra verdadeiramente seu tamanho e aparência, sua plumagem é em parte dourado e em parte vermelho. É parecido com uma águia em sua forma e tamanho. O que dizem que este pássaro é capaz de fazer é incrível para mim. Voa da Arábia para o templo de Hélio (o sol). Dizem, ele encerra seu pai em um ovo de mirra e enterra-o lá. Isto é como dizem: primeiramente molda este ovo tão pesado quanto possa carregar, então abre cavidades no ovo e coloca os restos de seu pai nele, selando o ovo. E dizem, ele encerra o ovo no templo do sol no Egito. Isto é o que se diz que este pássaro faz.
Filóstrato em Life of Apollonius of Tyana, verso 3.49:
E a fênix, ele disse, é o pássaro que visita o Egito a cada cinco séculos, mas no resto do tempo ela voa até a Índia; e lá podem ser visto os raios de luz solar que brilham como ouro. Em tamanho e aparência assemelha-se a uma águia; e senta-se em um ninho; que é feito por ele nas primaveras do Nilo. A história do Aigyptos sobre ele é testificada pelos indianos também, mas os últimos adicionam um toque à história, que a fênix enquanto é consumida pelo fogo em seu ninho canta canções de funeral para si.
Ovídio em Metamorfoses, verso 15.385:
Estas criaturas (outras raças de pássaros) todas descendem de seus primeiros, de outros de seu tipo. Mas um sozinho, um pássaro, renova e renasce dele mesmo – a fênix da Assíria –, que se alimenta não de sementes ou folhas verdes, mas de óleos de bálsamo e gotas de olíbano. Este pássaro, quando os cinco longos séculos de vida já se passaram, cria um ninho em uma palmeira elevada; e as linhas do ninho com cássia, mirra dourados e pedaços de canela, estabelecida lá, inflama-se, rodeada de perfumes, termina a extensão de sua vida. Então do corpo de seu pai renasce uma pequena fênix, como se diz, para viver os mesmos longos anos. Quando o tempo reconstrói sua força ao poder de suportar seu próprio peso, levanta o ninho – berço seu e túmulo de seu pai – como imposição do amor e do dever, dessa palma alta e carrega-o através dos céus até alcançar a grande cidade do sol (Heliópolis, no Egito), e perante as portas do sagrado templo, sepulta-o.
Tácito em Anais, VI, 28:
No consulado de Paulo Fábio e L. Vitélio, depois de um longo decurso de anos, apareceu no Egito a fênix, maravilha que foi matéria para doutas dissertações dos naturais e dos gregos da época. Sobre alguns pontos são todos acordes, sobre outros falam com incerteza, como vou contar, pois vale a pena saber. Essa ave é consagrada ao sol, e pela forma e natureza das plumas é diferente de qualquer outras: nisto concordam os que a descreveram; mas a respeito do período de ano de seu reaparecimento variam as opiniões. Ficam geralmente o ciclo de quinhentos anos, e alguns pretendem que seja de mil quinhentos e sessenta e um, pois que as primeiras foram vistas nos reinados de Sesósides, de Amásis e mais tarde no de Ptolomeu, terceiro dos reis macedônios, tendo elas voado para a cidade de Heliópolis, com grande acompanhamento de aves, admiradas de sua estranha figura. Não há certeza, porém nos fatos da antiguidade: entre Ptolomeu e Tibério, decorreram menos de duzentos e cinquenta anos; e por isso alguns pensaram que não era esta a verdadeira fênix, nem procedente da Arábia, nem semelhante às de que rezam as antigas memórias. Portanto, conforme a tradição, quando, completo o número de anos, se avizinha a morte, a fênix faz em sua terra um ninho, que ela fecunda, e donde nascerá um filhote. Apenas cresce este, seu primeiro cuidado é sepultar o pai. Não o faz, porém, de qualquer maneira, mas, tomando certa quantidade de mirra e experimentando suas forças, quando se acha capaz de com o peso vencer a viagem, carrega o corpo do pai para o altar do sol e ali o queima. Tudo isto, entretanto, incerto e aumentado de fábulas, mas não se duvida de que às vezes esta ave é vista no Egito.
Voltaire em A princesa da Babilônia descreve esta ave fabulosa:
Era do talhe de uma águia, mas os seus olhos eram tão suaves e ternos quanto os da águia são altivos e ameaçadores. Seu bico era cor-de-rosa e parecia ter algo da linda boca de Formosante. Seu pescoço reunia todas as cores do arco-íris, porém mais vivas e brilhantes. Em nuanças infinitas, brilhava-lhe o ouro na plumagem. Seus pés pareciam uma mescla de prata e púrpura; e a cauda dos belos pássaros que atrelaram depois ao carro de Juno não tinham comparação com a sua.
[..]
Logo que ali se encontrou, o primeiro cuidado da princesa foi prestar ao seu querido pássaro as honras fúnebres que este lhe exigira. Suas belas mãos ergueram uma pira de cravo e canela. Qual não foi a sua surpresa quando, depois de espalhar sobre essa lenha as cinzas do pássaro, a viu acender-se por si mesma! Tudo se consumiu num instante. Só ficou, no lugar das cinzas, um grande ovo, de que viu sair o seu belo pássaro, mais esplêndido do que nunca. Foi o mais belo instante que a princesa experimentou em toda a vida; não havia senão outro que lhe pudesse ser mais caro: ela o desejava, mas não o esperava.
– Bem vejo – disse ela ao pássaro – que és a fênix de que tanto me haviam falado. Estou prestes a morrer de espanto e de alegria. Não acreditava na ressurreição; mas a minha ventura convenceu-me.
– A ressurreição, Alteza, – disse-lhe a fênix – é a coisa mais simples deste mundo. Não é mais surpreendente nascer duas vezes do que uma. Tudo é ressurreição no mundo; as lagartas ressuscitam em borboletas, uma semente ressuscita em árvore; todos os animais, sepultados na terra, ressuscitam em ervas, em plantas, e alimentam outros animais, de que vão constituir em breve uma parte da substância: todas as partículas que compunham os corpos são transformadas em diferentes seres. É verdade que sou o único a quem o poderoso Orosmade concedeu a graça de ressuscitar na sua própria natureza.
Para Chevalier e Gheerbrant em seu Dicionário de símbolos a fênix é:
Como o símbolo da ressurreição, que aguarda o defunto depois do julgamento das almas se ele houver cumprido devidamente os ritos e se sua confissão negativa foi julgada como verídica. É por isso que toda a Idade Média fez da fênix o símbolo da ressurreição de Cristo e, às vezes, da natureza divina – sendo a natureza humana representada pelo pelicano.
Juan-Eduardo Cirlot no Dicionário de Símbolos conceitua:
Fênix – ave mítica do tamanho da águia, adornada com certos traços de faisão. Diz a lenda que ao ver próximo o seu fim, formava um ninho com madeiras e resinas aromáticas, que expunha aos raios do sol para que ardessem e nestas chamas se consumia. Da medula de seus ossos nascia outra ave fênix. Na tradição turca, recebe o nome de kerkés. Os relatos persas dão-lhe o nome de simorgh. Igual a outros aspectos, simboliza a periódica destruição e recriação. Wirtz dá um sentido psicológico a este ser fabuloso ao dizer que todos possuímos em nós uma fênix que nos permite sobreviver a cada instante e a vencer cada uma das mortes parciais a que chamamos sonho ou mudança. No ocidente cristão, significa o triunfo da vida eterna sobre a morte. Em alquimia, corresponde à cor vermelha, à regeneração da vida universal e à finalização da obra.
De acordo com Lima Júnior:
A fênix é descrita por muitos autores clássicos com uma incrível precisão, ainda que as descrições não sejam completamente coincidentes. Entretanto, uma série de características são comuns. Praticamente todos coincidem, por exemplo, nos brilhos desprendidos pelo corpo da ave e em sua plumagem, que admitem ser da cor de ouro avermelhado.
Apesar da nítida associação existente entre a fênix e a cidade de Heliópolis, os autores antigos sabiam que esta ave não procedia do Egito, e jamais entraram em acordo sobre a verdadeira morada deste ave. Para Tácito e Heródoto, seu lugar de residência era a Arábia; os poetas Ovídio e Marcial a situavam na Assíria. Aristides e Ausônio, por outro lado, afirmam ser essa ave procedente da Índia.
[...]
De acordo com autores latinos, a fênix está associada a uma ave solar hindu chamada cátedro, cujo canto se equipara ao da fênix. Pousada no alto de uma árvore, sua musicalidade é tão alta e clara que se escuta do bosque inteiro. Na China antiga, foi inventado o cheng, instrumento musical em forma de fênix, na tentativa de reproduzir seu canto.
Seja como for, tais opiniões divergentes mostram o quanto a lenda da ave fênix estava difundida no mundo antigo, e que para os antigos não havia outro animal nem ave igual a ela.
Atualmente os estudiosos creem que a lenda tenha surgido no Oriente e foi adaptada pelos sacerdotes do sol em Heliópolis como uma alegoria da morte e renascimento diários do astro-rei.
No início da era cristã, a fênix foi ligada ao renascimento e à ressurreição. Neste sentido, representa o Cristo ou o iniciado, que recebe uma segunda vida em troca daquela que sacrificou. Na arte cristã, a fênix renascida tornou-se símbolo popular da ressurreição de Jesus.
O mito da fênix está, portanto, intrinsecamente ligado à máxima filosófica da Lei de Lavoisier: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”.
A vida longa da fênix e o seu dramático renascimento das próprias cinzas transformaram-na em alegoria, em arquétipo da imortalidade e do renascimento espiritual inseridos no inconsciente coletivo.
Dessa forma, no decorrer da nossa existência, passamos por vários ciclos nos quais morremos e renascemos várias vezes. Acidentes, traumas, perdas, rompimentos, frustrações e crises, ou quaisquer outras situações dolorosas, são primordiais para o nosso desenvolvimento. Precisamos aprender, assim como a fênix, a enterrar a pessoa que fomos, as velhas crenças.
Ao renascer, assim como a fênix, já não somos mais a mesma pessoa de antes. Devemos então ressurgir das cinzas para a amplitude de possibilidades, uma nova fase repleta de mudanças significativas, uma mudança de paradigma pessoal, uma total transformação.
CHEVALIER, J.; GHEERBRANT, A. Dicionário de símbolos: mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números. 15. ed. rev. e aum. Rio de Janeiro: J. Olympio, 2000. 996 p.
O relógio marcava sete
horas da manhã em ponto, quando Léo despertou. Olhou pela janela, o dia já havia
amanhecido. Uma leve brisa despenteava a copa das árvores. Os automóveis
começavam a circular freneticamente pelas ruas. Preguiçosamente alguns
pedestres se aventuravam nas calçadas para mais um dia de trabalho.
Dia de enfrentar a
fera. “Seja o que Deus quiser...”, pensou Léo ao lembrar do que aconteceria
logo mais no escritório da Charme Ltda.
Léo jogou-se embaixo de
uma ducha morna para acabar de acordar. Vestiu-se tranquilamente. Preparou seu
café e ficou relembrando a noite anterior. Sentiu um calafrio ao recordar os
lábios quentes de Rudi. Estava tão fascinada com a semelhança dele com Sven,
que a havia esquecido o prazer e a magia dos beijos dele. Uma onda de calor
subiu por suas costas.
Rudi era muito melhor
do que Sven! Terminou de se arrumar, organizou sua pasta e seguiu para a sede
da Charme.
O trajeto foi
tranquilo. Às nove horas e quarenta e cinco minutos fez-se anunciar na
presidência da Charme. Indagou pelo senhor Rudi.
— Ele está reunido com
a sra. Laura nesse momento e pediu que não houvesse interrupção. — respondeu prontamente
a secretária.
— Está bem! Tenho algumas
coisas a fazer até a hora da reunião. Avise por favor que já cheguei e que
estarei na sala de reunião. Muito obrigada!
— ok, Leonarda!
Avisarei assim que puder.
Léo dirigiu-se para a
sala de reuniões. Tentou recordar os detalhes e as informações passadas por
Rudi na fatídica reunião. Precisava acertar todos os desvios do projeto
com base nos dados fornecidos. A estratégia estava correta, mas alguns ajustes
faziam-se necessários para que o projeto não fracassasse.
Às dez horas, Rudi
adentrou a sala de reuniões seguido de Laura. Ela tinha uma expressão
contrariada, apesar do sorriso que tentava esboçar.
— Olá, Léo! Fico feliz
que tenha reconsiderado em não sair do projeto...
— Sim, mas impus
condições para voltar...
— Claro, querida! — disse num tom irônico. — Estou disposta a pagar o preço por ter sido tão leviana.
Eu não tenho escolha. Fique à vontade!
Após esse breve
diálogo, Laura deixou a sala de reuniões. Léo voltou-se para Rudi com expressão
de dúvida.
— Ela aceitou
passivamente a situação?
— Claro que não, Léo!
Você conhece a prepotência de Laura! Eu tive que ameaçar com a retirada dos investimentos
programados pelos parceiros europeus. Há várias vertentes da Charme que são voltadas
para a beleza masculina e outras para a beleza feminina: perfumes, cosméticos,
acessórios e até prêt-à-porter.
Consegui uma parceria para lançar uma linha de spas na Europa, iniciando por Londres e Paris, que logo se
estenderá para outras capitais europeias e depois alcançará os Estados Unidos e
o restante das Américas. É um projeto muito ambicioso e milionário, que se iniciará
com o lançamento do Desire na
Europa. Eu não poderia correr o risco de, por um capricho de Laura, perder
tudo. Está acima dela. Desde sempre ela sonha em expandir a empresa na
Comunidade Europeia, pois é onde tudo acontece.
— Interessante! Você
usou o veneno dela para neutralizá-la. Muito esperto.
— Não sei... mas
funcionou! Aqui estão as informações que faltavam para fecharmos o projeto e
procedermos à fase três.
— ok! Vamos trabalhar!
Durante três dias, Léo
e sua equipe revisaram as estratégias e metas de lançamento. Tudo estava
correndo de acordo com o cronograma.
A festa de lançamento
seria no Rockfeller Center em Nova York. Toda a infraestrutura foi programada! O
evento seria uma festa grandiosa para mil e quinhentos convidados (astros e
atrizes de cinema, homens e mulheres de negócios, socialites e jornalistas especializados). Haveria dois palcos e uma
tenda para a apresentação de um show multimídia com todas as etapas de
preparação do Desire. A data
escolhida foi oito de março, devido ao dia internacional da mulher.
Seria apresentada uma
instalação em homenagem às mulheres, além de uma projeção holográfica dos acontecimentos
que tornaram o Oito de março o dia internacional da mulher.
Léo cuidou de todos ao detalhes
da pré-produção e encaminhou tudo para Rudi, que as repassava para Laura. Rudi
parecia cada vez mais distante, quando estava com Léo. Só falavam no perfume,
nas projeções e no evento de lançamento. Realmente a expectativa estava grande,
pois o departamento de atendimento ao consumidor recebia diariamente centenas
de indagações e encomendas para o perfume.
Rudi estava
entusiasmado, mas a distância aumentava. Léo tentava desviar seus pensamentos
daquele jantar e daquela noite maravilhosa, entretanto estava ressentida. Sabia
que havia acontecido algo, mas não podia atinar o que seria.
Faltando um mês para o
megaevento, a oportunidade para que Léo esclarecesse tudo aquilo surgiu. Estavam
todos animados com os números do marketing,
que resolveram ir à casa de chá comemorar e relaxar.
A casa de chá localizava-se no
mesmo bairro, uma rua acima. Era um prédio robusto e antigo datado de 1930. Abrigava a charmosa casa de chá há cinquenta anos. Brindaram com café puro. A conversa
estava animada. Léo não conseguia retirar os olhos de Rudi. Ele tentava não se
deixar desnudar pelo olhar perscrutador de Léo.
Aos poucos a equipe foi
se retirando. Alguns foram para casa, outros retornaram para o escritório a fim
de terminar algumas tarefas. Rudi e Léo viram-se a sós no café.
— É, Rudi, nós conseguimos!
Não que eu duvidasse disso, mas sim por causa da grandiosidade do projeto.
— É verdade! Mas eu
havia avisado que era algo extraordinário!
— Até hoje não
acredito que Laura tentou esconder tudo, por medo de eu me tornar gananciosa com
relação às cifras empregadas. Eu sou ambiciosa, luto por tudo que almejo, mas
não me vejo gananciosa!
— Eu também não, Léo!
É isso o que eu admiro em você. A dicotomia entre a sofisticação e a simplicidade
me fascinam!
— É mesmo! Sabe, Rudi,
eu não consigo esquecer aquele jantar e aquele passeio. Eu tento dizer para mim
mesma que foi um acontecimento isolado; maravilhoso, mas isolado... Entendo que
você ao se tornar meu coordenador não pode se aproximar mais. Acredito que a
minha insistência em que você aceitasse o cargo inconscientemente faria com que me afastasse de você, emocionalmente falando. O bloqueio que isso traz me afastou de
você. Acho que é medo de me envolver, me entregar.
— Você sabe empregar
as palavras.
— É! Mas quero dizer
que independente de tudo, eu apreciei tudo o que ocorreu. Não sei o que pensa,
mas eu gosto muito de você. Cheguei até a fantasiar nossa vida juntos, pois
você definitivamente é o homem quem eu gostaria que testemunhasse minha
existência.
— Humm... Não sabe
como esperei para ouvir isso todos esses dias! É claro que não tenho medo de
nada, mas, em se tratando de você, fico pisando em ovos literalmente. Senti seu
afastamento a partir da minha assunção à coordenação do projeto. Achei que
tivesse feito ou falado alguma coisa. Repassei os fatos ocorridos milhares de
vezes e não consegui encontrar o que dera errado.
— Rudi, foi inconsciente
ou subconsciente. Freud explica! Eu quero que esse projeto seja um megassucesso.
Empenhei-me para isso, mas não quero perder uma parte importante da minha vida,
que foi ter conhecido você. Senti vontade de fugir várias vezes, mas algo subitamente
me segurou. Eu quero estar com você, tocá-lo, saber quem você é de verdade. Eu
não tenho mais medo...
— Fico feliz, Léo!
Rudi tomou as mãos de Léo
e beijou-as. Nunca uma mulher fora tão explícita e tão centrada na explicação de
seus sentimentos. Rudi sentiu um calafrio de alegria.
Rudi explicou que a
fidelização é importante para garantir o retorno do investimento. Alertou que o
custo abordado era somente da campanha publicitária no Canadá e não no restante do
mundo.
— Eu quero esclarecer
que o projeto completo, de ponta a ponta, está na casa dos noventa milhões de
dólares. Envolve a pesquisa sobre o perfil do cliente a ser atingido a escolha
dos melhores componentes que representarão o perfil levantado, o
desenvolvimento de um design adequado, à marca e ao nome do novo perfume. Iniciado em 2003, a primeira
etapa foi finalizada em 2004. Descobriu-se então que as mulheres a partir dos
vinte e sete anos tinham um pensamento
diferente com relação ao trabalho, à
família e aos relacionamentos. Algo que poderia ser transformado em uma marca e
em um perfume. Essas mulheres já não querem passar tanto tempo no escritório,
mas também não querem voltar a ser típicas donas de casa. Elas expressam suas
ideias e vontades mais diretamente, independente do que isso possa causar ao
outro. Esse comportamento está diferenciado do movimento feminista do século
vinte, que elegeu o homem o inimigo número um das mulheres e que fez manifestações
ao redor do mundo com queima de sutiãs. Essa nova mulher não vê
o homem como seu opositor ou algoz, mas
como alguém que também foi pego de surpresa pela mudanças cada vez mais
rápidas. Alguém que está tentando se adaptar às novas demandas do papel social. O marido passou a ser o
companheiro, o parceiro de forma efetiva. A mulher então começou um processo
novo, a adequação a esses novos papéis. Ela está ressentida com a dificuldade
de alguns parceiros em perceber isso e se adaptar. Essa nova mulher entende que
sua participação ativa só tem a acrescentar no relacionamento íntimo e pessoal,
bem como nas relações sociais em geral. Enfim o perfume deve ser visto como uma
ode a essa nova atitude feminina. Depois do perfil, dos
componentes, do design e da marca,
foram desenvolvidos os primeiros protótipos para testes com potenciais
clientes. Elas se mostraram bastante receptivas e positivamente manifestaram
interesse na compra do perfume. O nome escolhido: Desire. Não há nada de
original na palavra escolhida, mas, durante a testagem da fragrância, a resposta foi sobremaneira positiva. E a
abrangência da pesquisa alcançou os oitenta anos. Os resultados foram
surpreendentes.
Léo olhou suas anotações
e não encontrou essas informações no dossiê encaminhado pela Charme Ltda.
— Eu não entendo... — interrompeu Léo intempestivamente a fala de Rudi — ... por que esse dados não
constam do dossiê de trabalho da minha editoria. Você pode me explicar Laura?
— Bem, eu tencionava
mencioná-las na próxima reunião após a explanação para fazer os ajustes necessários.
— Mas esses dados
fazem muita diferença na exposição, no estudo publicitário e no direcionamento
de mídia para o lançamento do perfume Laura. Como pôde.. não repassar as
informações?
— Eu queria um
campanha sóbria, mas sincera. A contaminação pelas cifras do projeto poderiam
prejudicar a criatividade que eu pretendia alcançar.
— Mas Laura...
— Eu sei que soneguei
informação, mas você conseguiu alcançar o meu objetivo. A campanha esta sóbria,
mas criativa. Com certeza vai chamar muito a atenção de todos!
— Estou estupefata com
sua atitude Laura. Você ouviu o que Rudi disse? — nesse momento levantou-se da
mesa de reuniões — é importante conhecer o grau de fidelidade dessas mulheres.
— Isso é besteira,
Léo. Não em venha com essa! — respondeu rispidamente Laura — Nós somos
mulheres! Nós sabemos que, uma vez que assumamos um compromisso, tentamos até o
fim cumpri-lo, não é? As mulheres se casam melhor com os perfumes do que com os
homens. Uma vez escolhido o favorito, é difícil deixar de usá-lo pelo menos em
ocasiões marcantes ou especiais!
— Claro, mas sonegar
informações, Laura! Não é justo! Com a empresa, com o projeto e especialmente
comigo! É um aspecto importante que não pode ser deixado de lado!
— Você está
radicalizando! Eu queria somente preservar a campanha da tentação da empresa de
publicidade e da sua equipe de viajar na maionese.
— Ridículo! — gritou
Léo — Sinto, mas acho que a situação está insustentável. Eu peço para me
retirarem da direção do projeto do Desire.
Verei com nosso coordenador a seleção de outro gerente, se assim você preferir!
— Não é possível, Léo!
Só quis preservá-la e é assim que reage?
— Sinto! Estou me
retirando... — falou rapidamente, recolhendo seu material e saindo sem olhar
para trás.
— Um minuto! — interrompeu
Rudi, um pouco espantado com o rumo da conversa entre as duas mulheres — desculpe não queria causar transtornos a você Laura! Mas não podemos permitir
que Léo saia agora do projeto. Seria uma catástrofe! Sonegar as informações
realmente foi um erro, mas não chega a ser grave!
Léo estava no hall do andar, aguardando o elevador,
quando Rudi a segurou pelo braço.
— Calma aí!
Precisamos falar!
— Sinto, mas você terá
que se reportar ao meu coordenador. Eu estou fora!
— Você é sempre
assim...
— Assim como?
— Impulsiva,
intempestiva...
— Não, mas não posso
aguentar desrespeito. Laura me deixou agir como idiota. Como pôde sonegar
informações importantes?
— Você não sabe como
ela gosta de manipular as pessoas para conseguir seus objetivos. Você não a
conhece como eu! Sempre querendo manter-se no controle da situação...
Léo estancou absorta
com o comentário. Como poderia ser? O jeito de Rudi ao se referir a Laura era o
mesmo de Sven ao falar sobre Kíria.
— Agora já não importa
mais... Não terei mais que falar com ela...
— Você está muito
nervosa! Será que posso convidá-la para jantar? Vá para casa, descanse um pouco
e às nove horas mando apanhá-la para jantarmos em meu hotel, certo?
— Mas...
— Infelizmente não aceito
“não” como resposta. Temos muito que acertar. Gostaria de fazê-lo no jantar.
Diga-me seu endereço!
Léo
informou-lhe seu endereço sem ter como recusar. Estava
hipnotizada com a proximidade daquele homem semelhante a Sven. O elevador chegou
e ela entrou como um autômato. Quando teria sua vida sob controle novamente?
Desde que Sven surgira, tudo virara de ponta-cabeça.
Respirou fundo quando
chegou à rua. Havia um cheiro de umidade no ar. Acabara de chover. Nas ruas
molhadas, as pessoas se movimentavam apressadas. Léo tinha somente duas
horas para estar pronta. Apanhou seu carro e não soube como chegou em casa.
Jogou-se na cama, confusa.
Que semana! Será que
embolaria mais? Por que Rudi era parecido com Sven? Quem era ele? Será que Sven
finalmente acreditara em sua história e agora tentava um meio de falar com ela?
Às oito horas saltou da
cama, tomou uma ducha fria para limpar a mente, perfumou-se. Vestiu um lindo
vestido branco de seda, que realçava suas formas e destacava o tom de sua pele:
jambo. Colocou joias simples.
Uma limusine foi apanhá-la
pontualmente às nove horas e conduziu-a ao hotel, onde Rudi estava hospedado:
um sofisticado cinco estrelas à beira-mar.
Léo pensou em perguntar
a Rudi se ele seria Sven, mas desistiu da ideia. Ele pensaria que ela era louca
ou coisa parecida. Decidiu aproveitar o jantar da melhor maneira possível.
Ao chegar, foi levada
ao restaurante, que estava deserto. Rudi a aguardava vestido num legítimo
Giorgio Armani cinza feito sob medida. "Sóbrio e charmoso", pensou Léo, "exatamente
como Sven". Afastou os pensamentos.
— Nossa! Como você
está linda! Exuberante!
— Obrigada! — sorriu
Léo.
— Você estava muito
tensa no final da reunião!
— Não era para estar?
Quando você é vítima de manipulação e descobre, é o fim! Parece outra situação
que vivi recentemente...
— Que situação?
— Você disse que temos
muito a acertar! Do que se trata?
— Léo, antes de tudo,
eu compreendo sua relutância em continuar no projeto, mas não podemos abrir mão
de você e de tudo o que foi feito até aqui! Gostaria que reconsiderasse sua
decisão.
— Infelizmente, Rudi,
não vejo como conseguir isso. Laura agiu de forma desleal.
— Eu sei! Eu disse a
ela que foi estupidez... Espero mesmo que reconsidere.
Nesse momento, uma das
mãos de Rudi tocou a de Léo. Ela sentiu uma
onda de calor . Ai! Como era bom sentir aquele toque! Léo disfarçou.
— Eu até poderia
fazê-lo — retrucou Léo, recolhendo sua mão —, mas com uma condição.
— Peça! Prometo que
moverei céus e terra para mantê-la conosco.
— Não quero mais
tratar com Laura. Eu a respeitava bastante, mas depois de hoje, não creio que
possa mais confiar nela.
— Léo, ela é a
presidente da Charme!
— Eu sei! Tocarei o
projeto em frente, desde que não tenha que tratar diretamente com ela. Eu sei
que fui intempestiva ao pedir demissão, mas não podia deixar barato toda a
situação. Empenhei-me muito com minha equipe nesse projeto. Até tive que
recusar ou protelar outros projetos para que a dedicação fosse total. É muito
ruim ver tudo ir por água abaixo. Rudi gostaria de tratar tudo com você!
— Mas eu não estarei
aqui por muito tempo... Na verdade eu estou aqui por insistência de Laura. Ela
disse-me que era imprescindível vir e participar da explanação sobre a
campanha. Jamais imaginei que tramava alguma coisa.
— É claro
que ser feita de boba é muito ruim! Ninguém gosta disso, mas o que
realmente pesou foi a sonegação de informação. Ainda por cima um tipo de
informação crucial, que não pode ser conseguida por outra fonte.
— É, você tem razão...
— suspirou Rudi desesperançado — Como poderemos resolver esse impasse?
— Tome esse projeto em
suas mãos. Você pode fazê-lo com base na atitude de Laura. Não sou orgulhosa a
ponto de deixar que um trabalho, no qual coloquei toda minha energia criativa,
vá para o espaço. Reconsidere em ficar, tocar todas as etapas e supervisionar a
minha equipe. Eu sei que, apesar de termos que corrigir o rumo da campanha, ela
funciona. Ela atinge seu objetivo!
— Uau! Como você fala
com entusiasmo! Há tempos que não convivo com alguém assim tão focado! Você vê
porque não pode deixar o projeto? — Rudi alcançou a mão de Léo e a apertou
levemente.
O maitre trouxe a carta de vinhos. Rudi selecionou um tinto seco,
safra 1986 para continuarem a conversa.
— É isso que eu quero
Rudi! Além de distância da Laura...
Pediram a sugestão do chef: rosbife ao molho de laranja com
purê de batatas e lentilhas. Léo apreciou bastante o jantar. O vinho estava
perfeito, de sabor encorpado. O rosbife muito perfumado.
— Pense na minha
proposta! E dê-me uma resposta amanhã — pontuou Léo, erguendo a taça. O gesto
foi prontamente correspondido por Rudi. Léo pediu crepe suzette para sobremesa,
pois era leve e possuía um sabor exótico.
Mergulharam então numa
conversa amistosa sobre viagens, lugares favoritos, acontecimentos. Riram muito.
“Ah! Que delícia!”, pensou Léo, “Há quanto tempo não passava uma noite tão agradável
ao lado de um homem inspirador.”
Os dias haviam se sucedido sem promessas,
apresentando só o estresse e a pressão de Laura em torno da campanha. Aquela
louca deveria ser internada. Por que não forneceu as informações? Deveria
deixar tudo correr de acordo com a cabeça desvairada dela? Loucura! Entretanto
ela estava ali em frente a um homem lindo, másculo, inteligente e parecido com
Sven. Como explicar isso?
— Você já teve a
impressão de encontrar alguém que já tenha visto em outro lugar, em outra
situação, Rudi?
— Isso acontece muito,
mas é só impressão...
— Não é impressão!
Pode parecer loucura, mas eu o conheci em outra época!
— O que diz?!?
— É fato! Você se
chamava Sven, vivia numa cidade do século treze em algum lugar entre a Suíça e
a França. Estava em pé de guerra com uma rainha chamada Kíria por causa de um lindo
campo de lavanda. Este campo tinha pertencido à sua família por gerações, mas
seu avô havia vendido para o pai dessa rainha. Eu acabei me envolvendo na
história, porque Kíria queria vender o tal campo para mim a qualquer custo.
Você tentava me dissuadir de comprá-lo.
— Interessante, Léo!
Mas eu não sou esse Sven! Acho que ele causou uma forte impressão em você!
— Talvez tenha sido
tudo obra da minha imaginação e da minha mente estressada! — Léo não pode
esconder a frustação após a revelação da história de Sven.
— O jantar estava
fabuloso, não?
— Sim... — respondeu
Léo um pouco absorta em seus pensamentos.
— Ainda é cedo! Nós
poderíamos passear pela cidade ou ir a algum lugar para continuarmos nossa
conversa, o que acha? Eu não conheço bem a cidade!
— Eu não sei... — vacilou Léo.
— Você pediu demissão
do projeto, não foi? Então tecnicamente você não está mais ligada à Charme, nem
à Laura nem tão pouco a mim...
— Pode ser... — Léo ficou pensativa.
— Eu só darei resposta à sua proposta amanhã. Então qual o problema?
Era a primeira vez em dias que teria uma folga para se distrair e o estresse de
hoje a tinha consumido.
— OK, tudo bem! — respondeu por fim, dando-se por vencida.
Rudi solicitou um
automóvel com motorista.
— Você conhece o lado
norte da cidade? Há grandes monumentos, que foram restaurados e bem iluminados.
Eles mostram a grandiosidade da história de Quebec!
— Hum... Jean
siga a orientação da senhorita. Lado norte da cidade...
— Sim, senhor!
Levaram cerca de quinze
minutos para chegar ao destino. Rudi ficou impressionado com a beleza do lugar.
Os monumentos eram grandiosos. Como a geografia era irregular, a cidade se
espraiava abaixo como um grande lago de luzes.
— Nossa! Léo realmente
é muito bonito.
— É! Gosto daqui! É
tranquilo para refletir!
Léo se encolheu de frio.
A noite estava limpa, mas havia uma brisa. Rudi retirou o paletó e o colocou
sobre os ombros de Léo.
— Obrigada!
— A noite está linda,
não acha?
— Sim, maravilhosa...
— Pena que não sou o
homem que você pensava...
Sentaram-se na praça
central dos monumentos. Várias luzes avermelhadas delineavam o perfil das
estátuas e dos prédios.
— Não pense mal de mim, Rudi! É que esse dias foram um pouco pesados para mim: a organização da
campanha, os preparativos para a reunião.
— Compreendo! Na verdade, acho que você pode ter tido uma depressão por ter trabalhado
tanto sem descanso e distração!
— Será?
— É bem provável!
— Espero que eu não o
tenha chateado com essa história?
— Claro que não!
— É pena que tenha
sido tudo imaginação — suspirou Léo.
— Vejo que esse homem
a impressionou bastante.
— Sim! Eu sempre fui
muito dinâmica, com inciativa. Até um pouco forte! Mas o que eu queria mesmo
era poder baixar a guarda, relaxar, ser feminina. Não ter todas as respostas! Encontrar
alguém...
— Ainda não encontrou?
— Eu pensei que
tivesse encontrado... — Léo sussurrou, olhando tristemente ao longe.
Rudi se aproximou um
pouco, tocou-lhe o queixo e beijou-lhe a face, depois os lábios. Primeiro
suavemente, depois passou a beijá-la apaixonadamente. Léo, a princípio, tentou
resistir, mas estava tão melancólica, que se rendeu.
— Léo, você é que me
deixou impressionado. Nossa! A forma como você
enfrentou Laura! Poucas vezes vi esse tipo de atitude! Todos são sempre
tão dissimulados, preocupados em agradar!
— Eu não suporto
hipocrisia, manipulação. Prefiro que tudo seja feito às claras. Tudo seria mais
leve, mais fácil...
— Ah! Léo... — Rudi
beijou-a ternamente. Depois a conduziu para o carro. Rudi pediu que Jean os
levasse ao apartamento de Léo. Durante o percurso Rudi segurava a mão de
Léo e vez por outra a levava aos lábios.
Léo estava confusa! O
cheiro, o jeito, o beijo; tudo, enfim, a fazia lembrar de Sven. Como poderia
não ser esse homem o duque de Thurgal? Chegaram ao prédio de
Léo. Jean saltou do carro e abriu a porta para Léo. Rudi desceu e tomou suas
mãos e levou aos lábios.
— Boa noite minha
querida! Procure descansar, porque amanhã teremos muito o que fazer com relação
ao projeto!
— Você vai
coordená-lo?
— Não há outra
solução, há?
— Não... — sussurrou
Léo.
— Aguardo você amanhã
às dez horas na sede da Charme.
— Mas e Laura?
— Deixe-a comigo! Ela
pode ser manipuladora e prepotente, mas sabe quando está diante de um impasse
que, por qualquer erro, pode colocar tudo a perder!
— Tomara que esteja
certo! Boa noite!
— Boa noite!
Léo viu o carro se
distanciar e suspirou. Fora uma noite maravilhosa! Que homem encantador! Há
muito não privava de companhia masculina tão agradável. Tomou o elevador
pensativa. Será que Laura entenderia a situação e sua insistência em permanecer
sob a coordenação de Rudi?
Ao abrir a porta, Jade
veio recebê-la sonolenta.
— Oi, bebê! Como
passou o dia? Sua mamãe está muito cansada! Vou colocar um pouco de leite para
você!
Jade se espichou e se
entregou às carícias de Leo. Ela bebeu rapidamente o leite e se empoleirou em
seu cantinho. Léo, por sua vez, abriu o vestido e deixou-o escorregar. Apesar
do estresse que foi o confronto com Laura, sentia-se leve. Pôde até cantarolar
alguma coisa!
Aconchegou-se entre o
lençóis e lembrou do jantar e do passeio com Rudi. É lógico que ele não era
Sven! Sven era forte, másculo, mas inseguro, precipitado, nervoso. Rudi era
terno, carinhoso, porém possuía um caráter marcante, aberto. Ele parecia não
ter medo...
Medo era o que ela
sempre sentira. Quando adolescente, deixou de se lançar nas descobertas que
pontuam essa idade, por causa dele, do medo. Ficava paralisada. Sofria muito.
Acabou vivendo pela metade.
Admirava Rudi! Sua coragem,
sua liberdade! Aquele homem tinha autoconfiança! Agora tinha certeza: Sven era
uma parte de si mesma! Inseguro, imprudente, impaciente, titubeante... Tudo o
que vira e ouvira era projeção de si mesma e de seus medos.