Quem sou eu

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A paixão pelo mundo árabe surgiu nas tardes de minha infância, ao assistir o seriado Jeannie é um Gênio, pois, junto à comédia dos anos cinquenta, havia números de dança árabe, como nos filmes egípcios. Em maio de 2000, comecei a tomar aulas com Rosilene Santos. De início, achei que não conseguiria, pois, na realidade, a dança trabalha o feminino. Aos poucos e com paciência fui descobrindo a beleza de cada movimento, de cada acorde musical. Percebi que, apesar de ser um pouco diferente, a cultura árabe não está tão distante assim de nós, brasileiros. Em 2005 iniciei os estudos do árabe para entender as letras das músicas árabes. Unido a esse conhecimento, veio o interesse pela música e cultura árabes. Em 2006 fui admitida como professora no Zahra Studio de Dança do Ventre, principiando minha jornada como mestra/pesquisadora da dança oriental. Em 2008 fundei o Harém Centro de Danças no Sudoeste e, em 2010 fiz a transferência da escola para Taguatinga. Busco entender a dança, de modo geral, e a dança do ventre, de modo específico, como forma de o ser humano se expressar num mundo conturbado e caótico. E posso afirmar que cada passo tem trazido gratas surpresas e plena alegria!

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

PORTA ENTREABERTA


Era tudo tão novo para Joca! A sensação de pisar na areia, a brisa do mar, as ondas e seu desenrolar ritmado.
João Cláudio nasceu perdido. Fora abandonado ainda bebê em um orfanato. Foi bem cuidado e desde cedo conquistou todos os colaboradores e voluntários que passavam pelo Lar Madalena, um orfanato sustentado pela diocese de São Miguel do Sul.


Recebeu seu nome de outra criança de cerca três anos, que passou a chamá-lo de Joca. Todos gostaram do nome!
Joca era moreno jambo, tinha olhos castanhos claros e os cabelos encaracolados. Parecia um anjinho barroco. Comparação feita por uma irmã quando o vira tão bonito e saudável. Ela não podia acreditar como alguém poderia abandonar tal criança.
Joca estava agora com cinco anos e fora adotado por Antônio. Joca a princípio havia perdido as esperanças de ser adotado, uma vez que os casais geralmente preferem os bebês.
Antônio encantara-se com Joca desde o primeiro instante. Achou-se até parecido com ele! Era alto, moreno jambo, cabelos lisos e olhos castanhos. O menino o imobilizara com seu sorriso e sua sinceridade.
Buscava Antônio um pouco de consolo após a morte trágica de sua noiva, Roberta, em um acidente de automóvel. Ele sempre fora positivo e buscava viver alegremente e de maneira simples. Entretanto esse fato ruim o desarmou diante da vida, pois ele a amava muito.
Um dia, sem entender muito bem o porquê, passou em frente ao orfanato e resolveu entrar. Uma irmã solícita o ciceroneou pela instituição.
Numa das salas de atividades, havia crianças desenhando atentas debruçadas sobre o papel. Foi quando viu Joca pela primeira vez. O garoto parecia brilhar. Aproximou-se cautelosamente e perguntou o que era o desenho.
— Diga você o que acha...
A resposta surpreendeu Antônio. Desde então não conseguia esquecer aquele ser tão iluminado que sorridente se postara ereto em sua cadeira e levantara a folha de papel toda desenhada e ornamentada.
Antônio iniciou então o processo de adoção com muita dificuldade, pois ainda persiste algum preconceito por parte das instituições religiosas e de assistência social contra o pai adotante solteiro. Ele teve a vida esquadrinhada e, após um ano de processo, finalmente tornara-se pai adotivo de Joca. A adaptação entre os dois começou paulatinamente com visitas regulares de Antônio ao orfanato e alguns passeios autorizados pelo juiz da comarca.
A chegada de Joca à casa de Antônio foi alegre. O garoto não cabia em si de felicidade e Antônio várias vezes o surpreendeu beliscando-se de leve.
— O que é isso Joca?
— Nada não. Só estou checando pra ver se não estou sonhando... se é verdade mesmo!
— Pois pode acreditar! Você agora é meu filho e esta é a sua casa!
Joca abriu um sorriso que chegava a se pendurar nas orelhas.
— Legal!
Antônio mostrou a casa e acomodou Joca no quarto dele, que ficava ao lado do seu.
— Qualquer coisa que precisar pode me chamar. Quero que você descanse. Amanhã vamos viajar para a praia.
— Agora que cheguei, já vamos sair...
— Só durante o feriado, Joca! Você vai gostar da praia!

Antônio tinha razão! Joca ficara pasmo com a quantidade de água e com o gosto salgado. Correu muito, saltou as ondas, escavou para ver surgir a água. Logo fez amizade com outros garotos, com os quais passou a construir castelos de areia. Era divertido ver as ondas desmancharem tudo.
Joca suspirou e sorriu. Era muito bom ter alguém como Antônio!
Joca percebia que uma porta estava se entreabrindo para ele. Como toda criança curiosa, esticou a cabeça e passou por ela sem temor. Agora poderia experimentar o outro lado da moeda. Agora teria um lar e uma família...